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REPORTAGENS

A arte de reportar, que não se aprende na escola, nos livros, nas horas professorais. Em lugar algum. Vem de dentro para fora. Surge como um grito, uma lágrima, uma poesia, uma composição. Palavras que ganham corpo e se transformam em texto a partir das ações e dos efeitos que já produziram. 

Ser jornalista é entender o real significado da profissão, do que é ser cidadão e estar inserido no mundo. É mais que militar no contexto do hip-hop ou da literatura. É ajudar a construir, escrever, reportar e eternizar a nossa história, marcada por muitas afrontas, lutas e derrotas, mas, mesmo diante da

sensação de impotência, sempre em busca da vitória. 
Aqui, neste campo, é possível clicar em algumas das reportagens que mais gostei de fazer.  

Para ler, clique nos links abaixo ou role a barra de rolagem:


Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias







"Hip-Hop: Dentro do Movimento" - Cultura ganha mais uma obra literária










MinC anuncia investimentos no hip-hop durante 2º Hip-Hop Mulher










MATÉRIAS




Bocada - Forte ::: Reportagem
Tubarão Du Lixo, o garimpeiro das periferias

Data: 15/04/2010





















Da baixada santista, artista recicla conceitos com inspiração no Hip-Hop e na literatura marginal
Um homem normal e vestido de forma adequada causa olhares espantados aos desavisados enquanto revira lixeiras, caçambas e sacos deixados pela rua. Ele não é um catador comum.

O armário que ele tem no quarto, dividido em duas partes, guarda as roupas de um lado e do outro o que ele consegue “garimpar” como objetivo de trabalho em meio ao lixo. Daí vem o apelido Tubarão Du Lixo. Isso por estar onde a maioria das pessoas prefere ignorar: em meio àquilo que causa repulsa e nojo. Entre o que é descartado, ele consegue enxergar o que pode ser transformado e lapidado até virar arte. Não rotula como um trabalho de reciclagem, apenas de mudança de coisas descartas. Mas, afirma que pretende reciclar o próprio ser humano. Trazendo mudanças de postura.

Aos 35 anos, Jeferson dos Santos usa o rap e a literatura como formas de desabafo e inspiração e acredita que as culturas de rua são as ferramentas para uma mudança social. No caso dele, o resultado é positivo. O início foi marcado por uma fase difícil, quando ele se tornou mais um desempregado no Brasil. Após ter trabalhado por 11 anos como eletricista na construção civil, foi despedido e se mudou para o litoral norte do Espírito Santo.

Uma nova perspectiva se descortinou diante do acúmulo de lixo. Como a cidade não possuía coleta de lixo, ele mesmo tomou a iniciativa de eliminar a quantidade de resíduos acumulados. “Comecei a desenvolver arte com eles. Usavam garrafas, caixas de leite e embalagens em geral”, lembra. A sequência do trabalho foi aprimorada por meio de um curso técnico que Tubarão fez quando retornou à baixada santista. Especializado em meio ambiente ele optou por trabalhar com o problema do lixo, algo que sempre o incomodou. “Comecei a desenvolver oficinas que abordavam este problema, como o consumo exagerado de produtos e o destino adequado ao lixo. Tudo isso feito de forma sutil e com muita arte”.

O Hip-Hop e a literatura marginal se fundem com o trabalho proposto por Tubarão. Quando iniciou a vida na construção civil, conheceu o rap, que passou a ser inspiração. “Me ensinou a viver em São Paulo, me indicou o caminho. Passei a escrever com as idéias borbulhando na mente”. Desta maneira, também no início dos anos 90 lançou um fanzine, onde expunha as próprias ideais e mazelas, sempre passando para o papel o que o incomodava. Feito à maquina de escrever, o “Acorde e Desacorde” trazia colagens de frases e fotos com protestos contra as multi-nacionais, os políticos e a obrigatoriedade do serviço militar. “Eu o fazia catando milho. Isso foi na época da construção civil. Depois, me afastei e desencanei”, conta. Entretanto, a inspiração continua a mesma e no último ano ele teve o prazer de ver o nome no rol de escritores do livro Suburbano Convicto – Pelas Periferias do Brasil, idealizado por Alessandro Buzo e que já está na terceira edição, a cada ano com novos autores.

Questionado sobre este trabalho, atrelado à arte feita a partir do livro, Tubarão se considera um suburbano convicto e agradece a oportunidade. “A sociedade me deu todo seu lixo e fiz dele a minha arte”, dispara. O livro lhe abre portas. “As que não se abrirem, ele arromba. A vida pode nos tomar tudo, menos nosso conhecimento”, completa. Além do livro, Tubarão mantém uma coluna no site Literatura Periférica, que reúne textos de autores da literatura marginal de várias quebradas, espalhadas por todo país.

Para Tubarão, o acesso à cultura e informação são os objetivos, e por isso ele considera fundamental mais incentivo a leitura. “Existem vários projetos pelas quebradas com esse propósito. Uma mente articulada faz mais estrago que qualquer oitão. Hoje muitos já estão escrevendo seus próprios livros e contado sua própria história”. Um exemplo é o trabalho que ele desenvolve e que não se limita a apenas recolher o lixo e lapidá-lo, mas a repassar o conhecimento através de oficinas.

Mesmo sem ter onde expor os objetos feitos, Du Lixo se engaja no trabalho, que segundo ele mesmo, no início tinha algumas formas pré-estabelecidas. “Minha arte era limitada. Com o passar do tempo fui deixando isso e dando mais liberdade a ela. Hoje não tem regra, nem forma. É livre, totalmente. Mistura-se tudo e tanto na minha produção como nas oficinas, fazemos o que a peça vai pedindo”. O trabalho inclui ainda outros elementos do Hip-Hop como o Graffiti, sempre ligado à pintura. Sempre buscando desenvolver e incentivar a criatividade e habilidade de crianças e jovens, fortalecendo a auto-estima e perspectiva de vida. “não temos a pretensão de transformar ninguém em artista mais sim, que todos possam ter o contato com a arte e através dela possam fazer a diferença lá na frente”.

Sem definir o trabalho como social ou ambiental, ele prefere chamar apenas de arte, onde várias manifestações como músicas, vídeos, literatura, artes plásticas e cênicas são trabalhadas na periferia. O objetivo é descobrir, divulgar e formar parceria com outros artistas que buscam, por meio de seus trabalhos, alguma responsabilidade social. “Nas oficinas temos uma metodologia e eu procuro levar informações que considero válidas. Busco usar a transformação dos objetos que antes era lixo e ninguém queria imagina que se transformariam em coisas bonitas, coloridas, com outras formas. Tento justamente passar para as pessoas esta outra visão. Quero que elas enxerguem as coisas de outra forma e se possível positiva”, diz. Para ele, o fundamental é que apliquem isso no dia-a-dia, utilizando todo tipo de resíduos. Entretanto, ele faz uma ressalva e não sabe explicar por que: “costumo evitar um pouco o vidro, mas não sei explicar o mo


tivo”.

Assim, ele continua trabalhando, em meio a arte e a bicos feitos como eletricista, encontra a sobrevivência naquilo que reforma. “Onde me chamam e posso, levo a minha arte. Priorizo lugares que tenham a ver com a proposta”, considera, se esquivando de aproveitadores, que querem se beneficiar da arte feita a partir “Du Lixo”. Por outro lado, esta mesma arte ainda não lhe garantiu sustento, apesar de algumas vezes aparecerem algumas oficinas remuneradas. “Ainda não tenho apoio financeiro e todo gasto de materiais que não encontro no lixo é bancado por nós mesmos”.

Apesar destas dificuldades, Tubarão reconhece que faz um trabalho único junto as periferias, incluindo a ideologia do Hip-Hop e da literatura periférica. “A maneira que desenvolvemos nosso trabalho, que encaramos, é única. Sempre ressalto isso junto aos meus parceiros, destacando que são o amor e a ideologia que vem junto, que aplicamos que faz a diferença. Tenho muito respeito pelo que faço. Se hoje eu sou o que sou, devo isso ao meu trabalho. Ele me fez conhecer pessoas, lugares, culturas e com ou sem grana, ele acontece”, finaliza.




Por: Jéssica Balbino




Bocada - Forte ::: Artigo
Um Adeus à Rainha do Rap

Data: 20/03/2010






















Morre Dina Di, grande guerreira do Hip-Hop brasileiro




Com uma vida nada fácil, ela foi a primeira a esmurrar a porta do barraco brasileiro e anunciar as mulheres no Rap. Uma mina de fato, como poucas dentro do Hip-Hop. A atitude e a força na voz a fazem a "Rainha do Rap", eternizada mesmo após a confirmação da sua morte às 23h30 de sexta-feira (19). Vítima de uma infecção hospitalar após o parto da filha no último dia 2 de março, Dina Di deixou o mundo que nem sempre lhe foi o melhor lugar e partiu. No legado ela deixa o estilo e a rima na ponta da língua.




Tinha o rapper na carne e transformava as feridas arrombadas em letras. Dos CDs gravados, ficou conhecida após se apresentar como "a noiva de chuck" e o casamento só aconteceu há pouco tempo. Conheceu o Hip-Hop aos 16 anos e escondida em roupas largas e bonés, apresentou as primeiras rimas, sempre defedendo o universo feminina. Morreu após dar a luz, na maior representação feminina que existe, o parto e o nascimento de um filho. Por ser conhecida, tem a história divulgada. Vítima de mais um sistema de saúde falido no nosso país. Com a visão que tinha da rua, montou um grupo de mesmo nome e gravou três CDs que ganharam os guetos rapidamente. Entre as vozes femininas do Rap, Dina Di foi quem mais levantou a bandeira do movimento.




Vítima do próprio sistema que tenta combater, viveu uma vida literalmente à margem da sociedade. Não teve tempo de amamentar a filha como deveria e nem de vê-la crescer. Deixou mais uma, entre as milhares do Brasil, criança sem mãe neste país que não é pátria. Mesmo sendo quase invisível no sistema que o Hip-Hop combate, ela foi uma denúncia andante, conceituou o Rap na carne. Sempre teve medo de descer do palco e ver a Dina Di morrer. Antes de ir para o hospital, estava agendando shows por todo o Brasil. Não deu tempo de visitar Poços de Caldas.




Antes de se tornar conhecida, perdeu as contas de quantas vezes passou pela Febem desde que fugir de casa, aos 13 anos. O pai de Dina Di era mestre de obras e morreu engasgado com um pedaço de carne num boteco, na periferia. A mãe dela era camelô e foi assassinada dentro de casa, uma morte lenta e dolorosa, ela foi asfixiada com um pedaço de pano que lhe enfiaram na garganta, enquanto estava amarrada com os fios do varal de roupas. Mas, nada disso a impediu de escrever com as vísceras e alma, relatando todas as dores que a perfuram.




Certa vez uma reportagem foi finalizada com a seguinte frase: "(...) diante de milhares de sobras humanas com voz e com raiva, Dina Di e os seus têm chance de não morrer no beco". Que pena que o otimismo não foi o suficiente. Ela morreu antes da hora. Se foi antes do tempo. Não ensinou tudo que podia e nem cantou tudo que queria. Mas, talvez nós, que acompanhamos esta trajetória e sabemos das dores de sermos tachados de trapos humanos consigamos melhorar um pouco a nossa periferia, a nossa volta e não percamos mais mulheres para a saúde falida do nosso país.




Guerreira, vai com Deus, vai em paz! Hoje o Hip-Hop chora: paz, amor, diversão e união a todos irmãos que compartilham a mesma dor desta perda horrível! Rainha, tá doendo muito, viu!




A FAMÍLIA HIP-HOP BRASILEIRA PRESTA SUA HOMENAGEM




"Essa notícia foi um baque e deixou meu sábado muito triste. Dina Di foi uma grande representante do rap feminino e brasileiro. Uma guerreira muito importante, que fez as mulheres ganharem mais respeito na cena. Com a perda dela, todos nós perdemos um pouco da nossa força. Espero que, agora, ela consiga a paz que todos nós procuramos."

(Thaide)


"Hoje, o rap se cala em homenagem a você, guerreira, mulher brasileira, que sempre teve compromisso com a música e com a verdade. Contava em suas letras, de uma maneira franca e direta, a dura rotina que levava, representando em seus versos e rimas milhares e milhares de mulheres. E, tragicamente, morreu no auge do Ser mulher, após dar à luz uma vida. Todo meu sentimento e que Deus possa confortar essa família, em especial à pequena Aline."

(Negra Li)
"Respeito, admiração, grande guerreira do Rap no Brasil. Que a nova geração jamais deixe de honrar o legado... Luz, Dina Di!"

(MC Marechal)




"Muita tristeza em receber essa notícia, infelizmente não perdemos só uma amiga, e sim uma grande mulher, uma guerreira e mãe lutadora. Na minha opinião, uma das maiores MCs do Brasil. Força para a família, para os amigos e todos os fãs. Deus sabe de tudo."
(Biofa - Parábola)

"Dina Di foi uma pessoa muito batalhadora, mãe dedicada e muito talentosa no rap. Viveu uma realidade difícil e venceu. Uma pessoa maravilhosa e de muito carisma. Tive a honra de conhecê-la e participar de eventos junto com ela, que abriu portas para outras mulheres no Hip-Hop. Desejo muita força à família dela. Fica o exemplo de uma guerreira que sempre segurou a onda."

(Nelson Triunfo)




"Triste demais! Dina Di: mulher, irmã, mãe e grande artista. O Hip-Hop perde muito e o Brasil, mais ainda! Esteja em um bom lugar, amiga!"

(GOG, via Twitter)




"Dina Di foi a primeira mulher que eu ouvi a fazer rimas realmente pesadas, teve uma vida de filme, com muita angústia e sofrimento. Tive a oportunidade de conhecê-la, foi uma artista que não colheu os frutos do rap na minha opinião. A infecção hospitalar é um dos retratos das mazelas na saúde brasileira. Respeito máximo pro Visão de Rua."

(Beve - Irmandade Negra)




"Conheci a Viviane há 17 anos. Foi amiga, parceira, e demos muitas risadas na vida. Com certeza ela irá deixar muitas saudades. Peço a Deus que tenha muito cuidado com ela. Uma grande mãe, mulher e irmã, assim é como vou definir esta guerreira chamada Dina Di. Agora, fica a lição de amar e respeitar quando se está perto, pois depois ficam somente as saudades."

(Japão - Viela 17)
"Guerreira, pioneira, rimadora, mãe, esposa. Humana. Respeito e Paz pra Dina Di."(Kamau)
"Lembro-me de uma fita k-7 que tenho até hoje com um som dela, que o Xis tocou em seu programa na rádio. Obviamente eu já conhecia suas rimas desde muito antes, mas a minha favorita é a que ele tocou e que até hoje eu não sei o nome, só lembro do começo: ´(...) Tô com saudade de você, meu filho, como vai? (...)´. Esse rap é muito bom, como vários outros dela, "Memórias", "Marcas da adolescência", "Corpo em evidência", várias informações de uma mesma história, de uma mesma mente. Rap é muito louco, né, mano? A gente combate os males que nos mata há anos. Morremos deles mais uma vez, digo morremos porque algo de cada um que um dia se identificou com uma rima dela também se foi naquele dia. Estávamos tão felizes, graças a Deus voltando de um show em Brasília, e o KL Jay mandou uma mensagem dando a notícia. Você fica sem ação nesses momentos... Nada que faça solucionará ou amenizará a parada. Quanto mais isso acontece, menos a gente se acostuma. Só me resta dar play naquela velha fita e deixar que a voz de Dina Di ecoe pela eternidade, sem fim, como um bom capítulo na história dos que realmente fizeram algo por nóiz. Descanse em paz, Dina Di!"(Emicida)

"Dina Di foi um incentivo moral pra todas as mulheres que estão no Rap hoje levar adiante o seu sonho. Ela é a prova de que mulher também pode fazer um bom Rap, ela tem uma história de garra e muita luta, venceu vários obstáculos e sem dúvidas é e sempre será um grande ícone pra nós, tanto mulheres como também para os homens!”(Lya - As Donnas)
"Não cheguei a conviver com a Dina Di, mas sempre fui fã dessa guerreira. Uma mulher de muita luta, fibra, que sempre foi linha de frente e nunca deixou a peteca cair. Ela foi um exemplo de poesia positiva que levou e ainda vai levar esperança para muita gente. Pena que, em vida, ela não recebeu o reconhecimento à altura do que merecia."(Criolo Doido)
"Estou muito triste pelo falecimento de Dina Di. Que a sua força e expressão sejam herdadas pelos seus. O povo precisa de rebeldia, de revolução. Rest In Power, Dina Di!"(DJ Laylo, via Twitter)
"Para grande parte dos MCs brasileiros, e eu me incluo nesta lista, Dina Di foi e continuará sendo uma grande influência. O Visão de Rua foi um marco no rap brasileiro, principalmente pelo pioneirismo de colocar a voz feminina na cena. Ela foi uma guerreira de muita voz ativa, que nos deixa como herança músicas muito bonitas e sentimentais."(MC Rashid)

"Graças a Deus tive a honra e o privilégio de dividir o palco com a saudosa e eterna Dina Di em 2008, na Febarj, Lapa (Rio de Janeiro). Vou orar pela sua alma, que com certeza neste momento está nos céus."(Lindomar 3L, via Twitter)
"Perdemos uma grande mulher, que representou muito dentro da cultura Hip-Hop, com talento e personalidade. Dina Di deixa um grande legado pras pessoas e sempre será uma forte referência na nossa cultura. Deixo meus sentimentos aos familiares e às pessoas próximas dela. Dina Di, que Deus a tenha."(Sombra)
"A primeira mulher que ouvi fazendo rap nacional foi a Rúbia do RPW e, na sequência, a Dina Di. Pude conhecê-la pessoalmente numa oportunidade no Rio de Janeiro, mais foi um papo rápido, em que o tempo só me permitiu dar um disco do Daganja e falar o quanto as letras delas foram importantes para minha formação no rap. Não acredito que a vida acabe com a matéria, espíritos guerreiros como o dela tendem a voltar logo. Uma pena ela não ter feito show na Bahia. Muita luz e respeito a todos."(Blequimobiu - Versu2)
"Esta foi uma perda grande pro rap brasileiro. Como pessoa, ela foi uma guerreira que passou por várias dificuldades de cabeça erguida. É triste vermos ela partir ainda tão jovem, mas sua mensagem e sua música nunca vão morrer. Lamento muito e espero que Deus cuide dela e conforte seus familiares."(Alessandro Buzo)
"(...)´Morreu frágil, sem implorar. Feito flor que rasteja, mas que a primavera não pode humilhar.´ Escrevi para minha mãe, mas serve para a Dina Di."(Sérgio Vaz, via Twitter)
"Ela era não só uma voz feminina dentro do rap, mas a própria voz do rap. Uma guerreira que ajudou o rap a chegar onde está hoje e que encantou muita gente com suas letras. É muito triste perdermos uma poeta das ruas. Desejo muita força à família dela e à família que ela deixou no rap, na qual eu me incluo. Espero que ela esteja bem e, de onde estiver, sei que ela quer que o rap continue e que a gente prossiga levando o rap muito a sério, como ela sempre levou." (DJ Marco)
"Esta foi uma grande perda pro Hip-Hop. Dina Di foi uma pessoa que contribuiu muito com a cultura de rua, que trouxe uma cara feminina com poesias contundentes, reflexivas, e opinião firme. Graças a ela, as mulheres deixaram de ser coadjuvantes no rap, porque ela foi uma protagonista, uma divisora de águas no rap brasileiro e exemplo pra muita gente. Todos do Pau-de-dá-em-doido lamentam muitíssimo. E que isso sirva de alerta para o Hip-Hop valorizar as pessoas em vida, porque, perto do que ela representou e da importância que teve, o que ela conquistou foi pouco."(Enézimo)
"Sem sombra de dúvida, Dina Di foi a mulher que mais inspirou as meninas do Hip-Hop a seguirem não só na música, como também no engajamento político, com muita seriedade. Ela vai ser sempre a musa inspiradora de quem faz Hip-Hop de qualidade e com atitude. Esta foi uma perda terrível em um momento em que o Hip-Hop tem que se repensar. Que descanse em paz. E que seus familiares tenham força e fiquem felizes porque conviveram com uma guerreira batalhadora e iluminada, que cumpriu sua missão com muita garra e humildade."(Markão - DMN)
"Convivi pouco com a Dina Di, mas sei que ela teve uma história de vida difícil, perdeu a mãe de forma trágica e foi uma guerreira, prosseguiu na batalha e venceu. Agora, ela faleceu ao colocar uma filha no mundo. Torço para que essa menina siga os passos da mãe, que seja guerreira como ela, que tenha a mesma determinação e consciência. Lamento muito, mas temos que pensar que a morte é ruim só para quem fica, ela faz parte da vida. Espero que a família da Dina Di seja forte neste momento e entenda que ela fez a parte dela e deve estar em um bom lugar."(Zulu King Nino Brown - Universal Zulu Nation)
"Uma mulher que superou toda as adversidades da vida. Mesmo com problemas, sempre se mostrou competente com o trampo e estava feliz em ser mãe. Calaram o grito de uma grande guerreira."(Edd Wheeler)
"Quando eu ouvi falar de Hip-Hop, eu ouvi Dina Di. Achava incrível como uma mulher estava no mesmo nível de equidade que os homens dentro da cultura, com presença e respeito de homens e mulheres, admirei de primeira e foi essa postura que abriu caminho para outras rapperes entrarem nesta cena com respeito. Mulher de raça que amou o Hip-Hop como amou a sua própria vida. Ficamos mas próximas há um ano e comprovei o quão guerreira, verdadeira e extraordinária Dina Di foi e continuará sendo. Eu aqui no Rio de Janeiro, juntamente com todas as outras mulheres guerreiras do Brasil manteremos a memória e o trabalho da Dina Di vivos. E como a Dina gostava de pontuar: É hora de Avançar... Dina Di na Ativa!"(Re.fem)
"Conheci a Dina Di pessoalmente em 2003. Apesar de estar sempre com a cara fechada em seus sons e videos, ela era uma mulher de bom coração. Em novembro, no Hutuz 2009, foi a última vez que conversei com ela, as expectativas dela para o 2010 eram as melhores possíveis. Infelizmente ela se foi, infelizmente pessoas de bom coração sempre se vão bem cedo. Deixou para todos o seu legado, suas músicas e mostrou que mesmo entre pedras, lama, cascalho, sempre é possível o nascimento de uma flor. Desejo Luz para esta passagem dela e inteligência para as pessoas que ficaram e estarão conduzindo a vida dos menores que ela deixou. Oracões são sempre bem vindas neste momento."(B.Dog - Rapevolusom)
"Dina Di não foi a primeria mulher a cantar Rap, mas com certeza foi a que mais se destacou. Rompeu barreiras, como mulher, com a música e mostrou para toda uma geração do Rap que uma mulher pode fazer o que imaginar. Teve um vida que daria um filme e foi uma das artistas mais autênticas que conheci. Escrevendo uma letra de Rap, foi um dos maiores talentos que já vi. Apesar da sua habilidade para outros ritmos musicais, sempre apostou e insistiu no Rap. Um exemplo de luta e de um trabalho bem feito, que, infelizmente, se foi quando sua vida finalmente tinha se tornado mais tranquila. Fazer letras como a Viviane é para poucos, sejam homens ou mulheres. Uma perda incomparável para o Rap. Descanse em paz, depois de uma vida de muitas tristezas. Força e Luz para o Thock e sua familia."(Alexandre de Maio)
DISCOGRAFIA:

Coletâneas
Made In Brazil - Vol. 2 - Visão de Rua - "Confidências de Uma presidiária" (single) - 1995
KL Jay na Batida Vol.2 - "Mente Engatilhada" (single) - 2000
Microfone Aberto - "Dormindo Com o Agressor" (single) - 2004
Mulheres Guerreiras - "Eles Falam de Paz" (single) - 2008

Álbuns
Visão de Rua - Periferia é o Alvo - 1996
Herança do Vício - 1998)
Ruas de Sangue - 2001
A Noiva do Tchok - 2003
O Poder nas Mãos - 2008







Colaboraram: Gilponês, DJ Cortecertu, Bruno Gil e Noise D





Por: Jéssica Balbino






»12/01/2012 13:55 - por: jessicabalbino
Escritor da periferia brasileira lança livro na Alemanha






Rodrigo Ciríaco é educador da rede pública em São Paulo, escritor da literatura periférica e lança o livro “100 mágoas” em Berlim










O educador e escritor Rodrigo Ciríaco, da periferia da zona oeste de São Paulo lança nesta quinta-feira (12) em Berlim, na Alemanha, o livro de contos 100 Mágoas.


A obra é um mosaico de várias histórias que abordam a problemática política e social da babilônia brasileira: a pobreza, o descaso e a violência policial. No entanto, o livro não limita-se ao “mais do mesmo”. Traz também tensões conjugais, emocionais. Tudo isso carregado de lirismo. Sem deixar de lado o cinismo.O trabalho tem prefácio de Marcelino Freire e orelha de Érica Peçanha. O projeto gráfico ficou por conta de Silvana Martins.


O evento de lançamento acontece na “A Livraria” , um espaço especializado em literatura afro-luso-brasileira e que já recebeu nomes da literatura brasileira como Marcos Lopes, Ruy Castro, Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro e o veterano da cena contemporânea/periférica, Ferréz.


Além do lançamento, haverá também leitura e tradução de alguns contos para o alemão, que contam com a mediação da pesquisadora Ingrid Hapke (Universidade de Hamburgo – ALE) que está finalizando um doutourado em letras sobre a literatura marginal.


Ciríaco, que já escreveu o livro de contos “Te Pego Lá Fora” (Edições Toró, 2008) , chega agora com esta nova proposta e o “100 Mágoas” foi lançado, no Brasil, em dezembro de 2011, percorrendo vários saraus das periferias de São Paulo (Cooperifa, Binho, Elo da Corrente, Suburbano Convicto, Mesquiteiros, Ademar), além da Balada Literária. O autor visitou também o Sarau Bem Black, na Bahia, onde fez o lançamento.


Contudo, esta não é a primeira experiência internacional de Ciríaco. Em 2011 ele esteve na Alemanha e visitou a mesma livraria, onde lançou o primeiro livro e fez leituras dos contos da obra “Te Pego Lá Fora”.


A outra experiência internacional aconteceu com a publicação na coletânea de contos “Je suis favela” (Editora Anacoana, 2011), ao lado de outros escritores como Alessandro Buzo, Sacolinha, Ferréz e Marcelino Freire.





Sobre o “100 mágoas”


100 Mágoas é um livro de contos. Que poderiam muito bem ser chamados de uivos. Gritos. Abafados. E que não se permitiam mais ficar calados.


Do mendicante, refletindo sobre a gozolândia cultural na Babilônia. E com fome de justiça na barriga. Da mãe, execrada em rede nacional, abusada e violentada na escuridão de uma cela, pra depois ser declarada inocente. Da favelada, que tem por sonho um piso para o seu barraco. Um piso. Só isso. Do índio, que não aceita mais ser explorado.


100 Mágoas é o rasgo no véu da mordaça dos oprimidos: pretos, pobres, periféricos. Dos brancos. E suas vidas miseráveis. Nossas vidas.


100 Mágoas é também um livro de amor. Sangrado. Sagrado. Profano. Abusado. Traído. Mal resolvido. Mal amado. Marcado.


Aliás, 100 Mágoas é isso: o registro de muitas marcas. Histórias, mágoas. Colhidas nos jornais, retiradas do estômago e das memórias. Latejantes. Dolorosas. Pra que fique bem claro por que lutamos. Por que bradamos, por que insistimos. Por que protestamos. Por que escrevemos. Ainda com revolta. Apesar de muitos acharem ser esta uma estação fora de moda.


100 Mágoas é isso. Um livro de lembranças. Literais e literárias. Porque recordar é viver. E lembrar é resistir.


Serviço – Mais informações sobre o livro podem ser obtidas através do link: http://www.efeito-colateral.blogspot.com/







Bocada - Forte ::: Reportagem
Twitcam: o rap entre o real e o virtual

Data: 06/09/2010


















Ferramenta audiovisual proporcionada pela internet aproxima ainda mais os artistas do hip-hop de seu público

Numa determinada madrugada, o artista mostra capas de LPs e coloca as bolachas pretas nos toca-discos, apresentando ao público, cada vez mais íntimo, músicas que considera boas. Comenta sobre samples e a importância da pesquisa musical, e é interrompido por perguntas. Responde, interage, brinca e se aproxima ainda mais das centenas de fãs que estão do outro lado da lente, talvez a centenas ou milhares de quilômetros.

A cena descrita acima tem se repetido algumas vezes, ao vivo e em cores, graças à ferramenta do Twitcam, que permite uma transmissão de vídeo gratuita e relativamente fácil, por meio da internet, com uso de uma simples webcam. O protagonista da sessão descrita é o rapper Kamau, que, há tempos, tinha vontade de fazer algo do tipo, mas diferente de um chat unilateral. “Comecei mostrando um ensaio para poder convidar as pessoas para um show, há algumas semanas”, confessa ele, que viu a “brincadeira” se alastrar rapidamente graças ao Twitter, outra ferramenta muito utilizada atualmente pelos agentes do hip-hop. “O que mais me agrada nesses encontros virtuais é ver o interesse das pessoas e a ´audiência´ subir. Tem gente conectada de vários lugares onde pensamos que nossa música ainda não chegou.”

Quem assiste às transmissões, como o editor do blog Noticiário Periférico,Anderson Rodrigues Antunes, 23 anos, entusiasma-se com a experiência, que, para ele, aproxima os fãs dos artistas. “É muito louco isso. Você fala com seus ídolos, pode ver, é praticamente uma conversa”, comenta. “Eu participei de uma sessão com o Kamau e fiquei muito feliz, pois sou super fã dele. Isso representa globalização e interatividade.” Assim como ele, outros 4,5 milhões de visitantes já passaram pelo site Twitcam, e o Brasil é o responsável por 81% dos acessos ao programa, segundo dados da empresa norte-americana Livestream, que o mantém. O escritor e rapperFantimanumilde é um dos que, com frequência, se liga no Twitcam e acompanha os debates e prosas virtuais. “Eu acho uma experiência muito legal. Um progresso para todos nós. O mais bacana é que posso expressar minha opinião, ser ouvido e obter respostas”, completa.

Já o DJ Crewolada, do Rio de Janeiro, conta que achou bastante natural participar como espectador de algumas sessões de vídeo feitas por MCs de todo o Brasil. “Eu me sinto muito bem ao ver pessoas que admiro pela webcam. Trato-os como semelhantes e é isso que somos na verdade, todos iguais”, destaca. “Essa naturalidade é bem diferente pela internet do que ver o cara na TV, sem falar que permite a interação em tempo real.” O rapper e ativista cultural Japão, do grupo Viela 17, do Distrito Federal, contou, via Twitcam, para esta reportagem, que se “assusta” diante de tanta tecnologia, mas que resolveu fazer uma edição para matar a saudade dos bons tempos, quando o hip-hop surgiu no Brasil e ele abraçou a cultura, há 20 anos. “Em alguns momentos, esse avanço tecnológico me assusta. As notícias são muito rápidas, mas é preciso acompanhar”, frisa.

No dia 16 de julho, uma situação inesperada movimentou os fãs de rap em torno do Twitcam: DJ Ciatransmitiu, ao vivo, uma sessão de estúdio com Mano Brown e Ice Blue, dos Racionais MCs, preparando uma música com refrão pré-gravado por Lino Krizz. Quando Helião, do RZO, chegou ao estúdio para fazer sua participação, porém, a transmissão foi encerrada. Para o público, ficou o gostinho de ter visto Mano Brown compondo ao vivo por alguns minutos, além da curiosidade de conhecer a música pronta.

Acostumado a acessar o Twitter até mesmo quando está viajando, o MC Rashid, de São Paulo, reconhece que o microblog facilita a aproximação das pessoas, “nem que seja virtualmente”, e considera o Twitcam eficaz nesse ponto. “Isso é bom. Se você souber usar essa ferramenta, só tem a acrescentar para o público”, analisa. Ele informa ainda que pretende organizar, com frequência, sessões via Twitcam, para mostrar letras, ensaios e instrumentais, além de transmitir informações aos que o acompanham, mesmo que de forma virtual.

A novidade que conquista mais adeptos a cada dia permite que os músicos de rap apresentem suas músicas e interesses via webcam. Para o MC Projota, que também respondeu às perguntas da entrevista pelo Twitcam, “fazer a interação permite ´conhecer´ pessoas e estar próximo de algumas que só Deus sabe quando poderei ver de verdade”. A tecnologia permite ainda que os artistas mostrem não só sua relação com o hip-hop, mas também situações inusitadas e que surpreendem os seguidores, como Rashid e Projota jogando videogame. MC Cabes, de Curitiba (PR) utiliza o recurso também como forma de expandir o trabalho aos grandes centros, fazendo com que variadas pessoas conheçam sua música. “A aproximação acontece de forma mais rápida e direta”, opina.

Mesmo com o alvoroço em torno da nova ferramenta, ainda há quem não seja muito adepto da ideia de usar o Twitcam, como é o caso de Emicida. O rapper confessa que, apesar de subir no palco e fazer shows com frequência, não gosta muito de “aparecer” - virtualmente, pelo menos. “Não tenho muita intimidade com o computador. Os caras usam o Twitcam toda semana. Eu só dou uma passada e pronto. Ainda não fiz uma sessão minha”, afirma.

A internet também pode ajudar a impulsionar um talento, como é o caso do rapper Correria, ainda emergente na cena. Ele conta que nunca imaginou que, ao colocar uma música no MySpace, conseguiria tanta repercussão e contato com pessoas do Brasil todo. “Em menos de um mês, vi que a música chegou longe e as pessoas estavam vindo até mim através do Orkut e do Twitter”, relata. “Fiz contato com pessoas de Minas Gerais, Paraná, Distrito Federal, e como elas ainda não podem ver meu show nem me conhecem pessoalmente, resolvi fazer uma sessão de Twitcam”, acrescenta. O retorno foi imediato: uma produtora de Brasília que acompanhou sua transmissão online pretende fechar, em breve, a contratação de seu show.

Kamau, que abriu esta reportagem, finaliza lembrando que as pessoas estão se habituando a ler informações e assistir a vídeos já formatados, e que a nova tecnologia proporcionada pelo Twitcam destoa disso. “Permite uma liberdade maior de expressão, que muitos utilizam de forma positiva para mostrar o processo de desenvolvimento do trabalho e até fortalecer novas ideias individuais”, conclui.




Colaborou: Gilponês


Por: Jéssica Balbino





Mães do Hip-Hop: o cotidiano das guerreiras

Data: 08/05/2010





























Entre o trabalho, a casa para arrumar, os filhos para cuidar e o companheiro, elas encontram tempo para criar, rimar, fazer shows e propagar o Rap brasileiro




Além de calças largas, camisetas e agasalhos folgados e bonés, o Hip-Hop também veste saia - e muito mais que isso. Rima sobre saltos altos e dança embaixo de maquiagem. Graffita entre os acessórios e, muitas vezes, escreve e compõe com a dor e a alegria de ser mãe e mulher. “É muito difícil ser mãe, mulher e fazer Rap”, já afirmava a MC Dina Di, que morreu ao dar à luz pela segunda vez, frase que se aplica a muitas garotas que fazem Rap brasileiro e dividem o tempo entre a carreira, o filho e a feminilidade.




Uma delas é Nicole, 26 anos, mãe de Maria Júlia (4) e Ana Clara (recém-nascida). Para se dedicar mais à família, ela abriu mão de cantar com o grupo Inquérito, do qual fazia parte até o ano passado. Outra mãe, mulher e rapper é Lu Afri, 26 anos, a parte feminina do grupo UClanos, no sul de Minas. Ela se alterna entre a maternidade do filho Jeam (7), os ensaios com o grupo, o emprego num pet shop e a igreja que frequenta e em que também canta louvores.




Há mais tempo na estrada, a rapper da velha escola Rubia, que representa os grupos RPW, JogadoreZ, NK+NB, La Chicka V.T., QPG e Coletivo PRH, é mãe de dois filhos, de 23 e 9 anos, e carrega a bandeira com a frase de Dina Di. Em comum, as três carregam o amor pelo Hip-Hop e histórias de vida fascinantes dentro desta cultura. Na memória, trazem respeito e saudades de Dina Di, considerada a Rainha do Rap, que esmurrou a porta dos barracos brasileiros e exigiu respeito às garotas que faziam rimas mesmo antes dela, como é o caso de Rubia, que milita desde 1989 e atualmente está inserida no projeto Hip-Hop Mulher, em prol da visibilidade e oportunidade para a mulher, trabalhando com seminários, debates, palestras e oficinas. Tanto para ela como para Lu Afri e Nicole, conciliar o sonho com a rotina é algo complicado e, entre as principais dificuldades, estão: com quem deixar os filhos, qual a reação dos filhos quanto à mãe ser artista de um segmento masculinizado, manter a feminilidade e superar o machismo. Nicole acredita muito na afirmação feita por Dina Di e acrescenta: “Isso se aplica à maioria das mulheres que cantam Rap. Maternidade, preconceito, às vezes até do parceiro, e sonho”.




Para Lu Afri, as dificuldades financeiras muitas vezes são um embate entre a maternidade e o Rap. Moradora de periferia, ela tenta administrar o próprio tempo e o salário para não deixar faltar nada em casa. Trabalha de segunda-feira a sábado, durante todo o o dia, e aos domingos se divide entre os ensaios do grupo, no qual canta com o marido, Flávio, a limpeza da casa, a roupa para lavar, a comida para fazer e o filho para brincar e passear. “É uma dificuldade ser mãe nos dias de hoje. Em tudo o que eu faço, penso primeiro no Jeam e no que pode faltar para ele. Não gasto dinheiro à toa, pois sei que pode ser o dinheiro de uma fruta ou pão para ele”, afirma. Atualmente, tenta juntar dinheiro para comprar uma casa própria num bairro próximo de onde ela e o marido trabalham, o que evitaria as horas dentro dos ônibus enquanto Jeam fica com a avó, mãe dela. “Ela cuida do Jeam enquanto eu trabalho. Metade do período do dia ele fica na escola, mas preciso dela para ficar na outra parte. Eles se dão bem e é muito bom, mas preciso ter a minha própria moradia”, coloca.




Já Nicole passou a última semana na casa da mãe, enquanto a casa em que vive com o marido, que por 15 anos foi DJ do grupo Realidade Cruel, está sendo reformada. Durante a semana ela tem uma rotina parecida com a de Lu Afri, e troca apenas do trabalho do pet shop por um de funcionária pública. Quando volta, cuida da casa, do marido e das filhas. Aos fins de semana, tem mais tempo para criar, apesar de estar “dando um tempo” do Rap. Ao engravidar da segunda filha, tomou a decisão de deixar o Inquérito, os shows e gravações do disco “Mudança”. “Quero cuidar especificamente da minha família. O grupo tem sua agenda de shows, entrevistas e atividades. E, nesse momento, o que necessita mais da minha atenção é minha família.” Questionada sobre pensar em desistir, Nicole é taxativa: “Eu nunca desisto, dou um tempo e mudo as prioridades”.




Entre os muitos trabalhos, participações e atribuições, Rubia ainda cuida de um salão de cabeleireiros na Galeria do Rap, na rua 24 de maio, em São Paulo. Conciliando a rotina com os trabalhos em vários grupos, ela acredita que os próprios trabalhos musicais, tanto solo ou em grupos, falam sobre a trajetória de vida e também no Hip-Hop. “Exteriorizo minhas dores e amores, alegrias e provações que andam lado a lado com minhas músicas.” Assim como ela, durante os quase 20 anos no Hip-Hop, Dina Di compôs letras claras e reais sobre a própria vida e as provações pelas quais passou, inclusive a tentativa de recuperar a guarda do filho Lucas, hoje com 13 anos. “Eu quero ver meu filho crescer, aí você que só quer me fazer o mal, vou dizer que não há alem de Deus o que me faça parar, não há derrota que derrote alguém que nasceu pra vencer!” Este é um trecho das músicas da rapper, que não pôde ver a segunda filha Aline (atualmente com dois meses) crescer e nem cuidar da bebê que planejou durante os últimos dois anos. Em outras canções, ela lembra também da dor de ser rapper, mãe e sem mãe, após ter perdido a progenitora de forma violenta.




Uma inspiração para Lu Afri, Dina Di foi sua grande motivadora nos últimos 12 anos que ela dedicou ao Rap e, posteriormente, ao casamento com Suburbano - também MC - e ao filho. Com muitos sonhos na bagagem, ela tem a tristeza de não ter podido conhecer ou mesmo cantar com Dina Di, mas traz consigo a mesma força e garra. Guerreira nata, luta contra as adversidades e gosta de buscar seus sonhos. “Um deles é gravar um CD, ser reconhecida pelo meu trabalho, pelo que faço, pelas músicas que canto”, diz. Para isso, ela tem de se sacrificar. “Às vezes, fico sem dormir para cuidar do Jeam, passar mais tempo com ele e vê-lo crescer, mas quero dar ao meu filho as condições que eu não tive e penso conseguir isso através da música. Quero vê-lo crescer e sonhar junto comigo.”




Com muitas histórias de vida e musicais, Nicole faz questão de lembrar que, na primeira gravidez, viajou por todo o país fazendo shows. “Neste tempo aconteceu o evento´Hip Hop na Veia´ e o grupo Realidade Cruel, do qual meu marido fazia parte e eu fazia participação na época, ia se apresentar. O pessoal ficou preocupado com aquela situação toda, me deixou em casa contra a minha vontade e foi fazer o show”, lembra. Naquela noite, Maria Júlia nasceu. Isso prova o envolvimento das filhas com o Hip-Hop desde o ventre, de onde tinham contato com o som. Hoje, elas acompanham a mãe no estúdio e nas gravações, sendo que Ana Clara é amamentada enquanto Nicole grava e participa de outros trabalhos. Quanto aos shows, ela sempre pensa duas vezes antes de levar as pequenas, por conta da repressão policial. Mas, das vezes em que levou-as aos shows durante o dia, se sentiu muito orgulhosa. “É muito bom ver minha filha cantando as minhas músicas. Ela se mostra muito empolgada durante os ensaios e shows. Ainda não levei a mais nova, mas, em breve, quando retornar aos palcos e às atividades, não faltarão oportunidades.”




Para Lu Afri, levar Jeam aos ensaios ou shows é um desafio. “Ele é muito ciumento e levado, então tenho que estar o tempo todo correndo atrás dele ou contendo os microfones, que ele quer pegar para cantar”, diz. Por outro lado, ela também se orgulha de ver o filho embalado pelos beats do grupo e cantando as letras que ela mesma ajudou a criar. “Ele gosta bastante de Rap e de música. Não tinha como ser diferente, com pai e mãe apaixonados por Hip-Hop.” Para o futuro, estas mães têm inúmeros trabalhos musicais e diferentes desafios cotidianos. Entre a roupa para lavar, comida para fazer, casa para limpar, cabelo para trançar, pele para maquiar, mamadeira para esquentar, fralda para trocar e criança para brincar, elas querem fazer sucesso e propagar o Hip-Hop da melhor maneira.




Sem medo das dificuldades e "com Deus no coração", como elas mesmas dizem, não há nada como uma boa música e um pouco de esperança para seguir adiante e ver as coisas melhorando. Até o fim do ano, Lu Afri deve colocar nas ruas o CD “Pelos Cantos”, gravado com o UClanos, e iniciar uma série de shows Brasil afora. Já Nicole está trabalhando uma música para homenagear Dina Di. “A Rainha do Rap infelizmente faleceu, mas deixou sua marca registrada em todas nós, mães e rappers.” Para o próximo ano, ela espera também lançar um disco solo. Já Rubia segue trabalhando com os grupos e também em carreira solo, além de trançar muitos cabelos no salão e se dedicar aos filhos. Guerreiras, elas afirmam que, para todas as mães do Hip-Hop, não existe diferença entre o que elas vivem, pois a ideia é unânime:“para tudo o que fazemos, colocamos o coração e nos arriscamos”.







Essa matéria é em homenagem a todas as mães do Hip-Hop e, em especial, para Dina Di (em memória).







Bocada - Forte ::: Reportagem
Vestindo sons e estilos musicais

Data: 16/03/2010






















Agitadores culturais, escritores e rappers criam grifes próprias e despontam uma nova tendência de mercado




Poços de Caldas, MG.




Transformar gírias, eventos, regionalismo e ideias em roupas e acessórios é o desafio que muitos adeptos da cultura Hip-Hop e exaltadores das periferias têm assumido.




Com grifes próprias eles pretendem, através das roupas, encontrar mais uma forma de expressão e de renda. "Largue a escopeta, se arme de caneta e vamos escrever nossa história". Esta é uma das frases estampadas nas camisetas da grife Suburbano Convicto e é exatamente com ela queAlessandro Buzo, escritor, agitador cultural e empresário, pretende fazer a (r)evolução da periferia. Envolvido com a cultura Hip-Hop, ele afirma que criou a grife porque a maioria das marcas existente no mercado era de pessoas de fora, que ganhavam dinheiro vestindo os adeptos sem reverter nada em prol do movimento. Com o mesmo nome da grife, Buzo tem uma loja e já lançou três volumes de uma coletânea de textos entre autores de vários Estados do país.




Com uma loja no bairro do Bexiga, próximo ao centro de São Paulo, ele comercializa camisetas da grife com outras frases, como "Sou a contraindicação, o favelado com livro na mão (Buzo)" e "Faço parte do quilombo comandado por Zumbi", além e modelos estampados com o a frase"Favela Toma Conta", referente a um evento realizado também no centro da capital paulista. "Em breve teremos bonés, regatas e baby look. Para divulgar montamos estandes em eventos, como na última Feira Preta, mas, no geral, as vendas se concentram mais na loja", conta. Para valorizar a marca, Buzo também faz vendas via Internet.

"Interiô"




A forma escrita em conjunto com a oralidade da palavra que significa interior é o que resume o sucesso da grife criada há três anos por Roberto José de Lima, 26 anos, conhecido como Bebeto.




Com desenhos e frases criativas, o MC do grupo de Rap sul-mineiro Uclanos resolveu investir nas vestimentas e valorizar a regionalização. "As pessoas se identificam com o orgulho de morar em Minas e a grife propõe justamente isso", explica. Ele deixa claro que a marca não é atrelada apenas ao Hip-Hop e atingir os mais variados tipos de público é uma meta. "Hoje conseguimos agradar todas as pessoas, desde os mais jovens até os mais idosos", acrescenta. A ideia que surgiu como uma brincadeira se tornou a profissão do jovem recém-formado em administração de empresas. Além do boca a boca ele já consegue comercializar as camisetas e agasalhos em lojas da cidade e também produzi-las em larga escala sob encomenda, como fez recentemente com o grupo de dança Concepção Urbana, que adotou moletons como parte do figurino.




Desta forma, o hobby se transformou em ganha-pão para o jovem e a tendência é crescer, porque outros grupos, como Banda K2, Clip Art e Leo Santana, têm vestido a marca enquanto estão no palco, o que abre possibilidades de ampliação do negócio.




O economista Rafael Sangioto acredita que a expansão do mercado para este tipo de grife tem a ver com a identificação ideológica. "Os grupos criam a marca por dois motivos: para fortalecer uma ideia e ganhar dinheiro. Os adeptos observam e querem se vestir como eles, o que movimenta o mercado e desperta o mesmo desejo em outros os grupos", considera.

Na cidade, o rapper Leopac é um dos adeptos da grife criada por Bebeto. "Eu visto as roupas e acho importante prestigiar a marca de um colega", diz.

"Nós pega e faz"




A produtora de eventos voltados para a cultura Hip-Hop de Belo Horizonte também adentrou no universo da moda em 2008. Com artigos, CDs e roupas foi criada a grife U Comboio. De acordo com um dos integrantes, Bruno Eustáquio, conhecido como MC Budog, são desenvolvidos modelos de roupas e estampas no estilo musical do Rap. "Fazemos roupas masculinas, femininas e infantis, como blusas de malha, baby look, macacão, calça jeans, camisetas, saias, moletons e alguns lançamentos que estão por vir", conta.




A grife já está focada também na criação de bonés para a próxima edição da Mostra Canta e Dança BH – 4 elementos da cultura Hip-Hop. "Em 2008 realizamos um desfile de moda voltado para a cultura Hip-Hop, com roupas e estampas criadas pela própria produtora".

K.O.




"Não vem com caô para cima de mim, não!" A expressão famosa nas periferias brasileiras é o que inspirou os amigos Erison Ribeiro e Edinilson da Silva, conhecidos como Japa e Eddie, a criarem a grife K.O. Aos 20 anos, Japa trabalha com roupas há sete e foi incentivado por amigos a criar as próprias camisetas. Assim, desde novembro o grupo BLK sobe aos palcos vestindo a própria roupa, confeccionadas por eles mesmos. Questionado sobre o que pensa da expansão das grifes ligadas ao Hip-Hop e à periferia, ele acredita que é uma questão de gosto. "Quem gosta de Rap já acompanha o estilo e as pessoas querem se vestir como os cantores, é natural e acabam enxergando bem a nossa grife", dispara. O faturamento ainda é pequeno, pois a marca é vendida no boca a boca, entretanto, os jovens acreditam que o negócio deve ser expandido. "Ainda não tivemos dinheiro para registrar a marca, faremos isso em breve e vamos colocá-la em lojas e eventos para a venda", acrescenta.




Moda diferente




"O M.Á.F.I.A tá na área", assim que os irmãos Anderson e Jeferson Jacon Jeremias abrem os shows do grupo e, aproveitando o bordão, também criaram recentemente a própria grife em Poços. Por terem um estilo diferente de cantar Rap, os irmãos ainda levam isso para as roupas. "Não usamos roupas largas. Preferimos um estilo de protesto", pontua Anderson. Para ele, a criação de uma grife é mais uma maneira de fortalecer o estilo. "Usamos isso também como divulgação e podemos lucrar de outra maneira", diz.




Anderson acredita que atualmente a vendagem de CDs é muito pequena para os grupos e por isso há o fortalecimento por meio das camisetas. "Criamos promoções. A pessoa compra um combo com CD e camiseta. Hoje ninguém quer só escutar as músicas, mas também se vestir da mesma maneira que os cantores". A postura do rapper vai ao encontro das considerações do economista, que pontua: "Os materiais de vestimenta e acessórios também servem como uma forma de incrementar os grupos, aumentando o interesse pelas músicas. A pessoa está na rua, num show e vê a camiseta, pode nem gostar do som, mas se gostar da estampa procura saber mais, acaba comprando e assim fortalece também a vendagem. A tendência é que estas grifes cresçam e conquistem boas fatias de mercado". Para Alessandro Buzo, o diferencial das camisetas também está na mensagem. "Elas sempre trazem algo escrito e nas camisetas da elite eu não costumo ver isso. As frases despertam interesse", diz.

Por aí afora




Para a estudante de psicologia Caroline de Castro, a criação de grifes próprias por parte dos grupos faz parte do processo de descoberta de identidade. "Quem é adepto de uma cultura de rua, como o Hip-Hop, ou gosta de exaltar a periferia, já traz consigo a sensação de protesto e vejo que muitos grupos cansaram de usar roupas feitas por gente de fora. A criação cultural está muito grande no microcosmos de cada região e daí essa explosão de grifes. Cada um quer se vestir conforme pensa e ainda espera trazer outras pessoas para dentro dos estilos", considera.




O pensamento de Alessandro Buzo vai ao encontro do dela. Indagado sobre o que pensa quanto à periferia ter grifes próprias ele é firme ao responder que todos deveriam vestir somente roupas produzidas nos guetos. "Deveríamos vestir só nossas roupas, mas ainda vai demorar um pouco. Tanto para as marcas se estruturarem como para o pessoal querer vestir só nossas roupas. Mas, vamos trabalhar para isso acontecer. Já fui patrocinado por outras marcas, mas, em breve, vou usar somente a minha". O mesmo acontece com Bebeto. Desde que criou a Interiô, ele só circula pelas ruas de Poços de Caldas vestindo as próprias roupas. "É uma forma de autodivulgação", crê.




O rapper e escritor Renato Vital ainda não tem uma grife própria, mas faz questão de se vestir com a Suburbano Convicto e também a 1dasul – criada pelo escritor Ferréz em São Paulo. "É ótimo o Hip-Hop ter suas marcas, embora tenha algumas mais empenhadas do que outras".




O DJ Cortecertu também aprova os empreendimentos vindos de gente da periferia. "São empresários que não temem, nem têm vergonha da imagem da periferia e conhecem o potencial econômico e a autoestima que pode ser desenvolvida entre os jovens consumidores. Entretanto, faltam investimentos em iniciativas assim para um marketing mais forte, no estilo por nós e para nós", destaca.




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Por: Jéssica Balbino




Bocada - Forte ::: Reportagem
Ricardo Beatbox - O beatbox do interior de São Paulo

Data: 28/09/2010












Diretamente do interior paulista, Rodrigo Beatbox se destaca na arte de reproduzir instrumentos musicais com a boca e as cordas vocais

No palco, mais uma atração da noite é anunciada e não se trata de mais um grupo de rap. A percussão vocal do hip-hop é então chamada e atende porRodrigo Beatbox, 29 anos, que pega o microfone e já dispara um espectro diversificado de sons e efeitos. Os instrumentais feitos com a boca impressionam a plateia que, embora reduzida, fica extasiada com a performance.

“O que você tem na boca, mano?” É uma das perguntas que ele houve pouco antes de ser sabatinado com as perguntas para esta reportagem. De Mogi Mirim, no interior de São Paulo, ele enfrentou pouco mais de uma hora de estrada para chegar ao local do show - em Vargem Grande do Sul - e exibir um pouco mais da arte que vem aperfeiçoando ao longo dos últimos oito anos.

Rodrigo Beatbox conta que, desde criança, tem o dom de brincar com os sons e transformá-los apenas com a habilidade das cordas vocais e da boca, que hoje são acrescidos de muito estudo e até mesmo uma gaita, que saca do bolso durante o show para impressionar ainda mais o público.

Foi pela televisão que ele viu alguém apresentar, pela primeira vez, o beatbox, há cerca de 13 anos. Na ânsia de imitar o que tinha visto na telinha, descobriu o dom e a criatividade, que acredita serem provenientes de Deus. “Ele derrama as bênçãos naqueles que estão prontos para fazer a arte d`Ele e evangelizar também atrás do beatbox”, afirma, ao relatar que se converteu depois de sobreviver a um grave acidente de moto. Desde então, dedica-se ao talento que, aos olhos de todo o público, parece extremamente natural.

O vasto repertório é o que o diferencia dos demais artistas que praticam a técnica no Brasil, e trazem comparações até mesmo com o Fernando Beatbox, tido como o grande ícone do beatbox no hip-hop brasileiro. Por vários minutos, Rodrigo Beatbox passeia por diversos sons e tons, risca discos, imita sons de scratches com perfeição, passa por sonoridades eletrônicas e, no samba, reproduz até uma cuíca. Seu repertório é muito bem preparado. Durante vários minutos, Rodrigo faz de sua boca o centro das atenções.

Aguardando a vez de entrar no palco, Biorki, vocalista do Shekinah Rap - atração da noite -, se admira com a desenvoltura de Rodrigo Beatbox. “Ele é muito bom. Tem todo um diferencial e manda muito no beatbox", elogia. "Ele consegue fazer todos os sons, desde o scratch ao som de uma balada. Enfim, é muito criativo." Ao final, o show fica completo com o acréscimo de voz e violão, que Rodrigo incrementa fazendo a bateria. E encerra apresentando um rap misturado com bossa nova.

A história de Rodrigo Beatbox faz um caminho inverso ao convencional. Ao invés de ater-se apenas ao público do hip-hop, ele busca reconhecimento e destaque em programas de TV e reality shows, tendo sido finalista do programa Astros, exibido pelo SBT em 2008, e participado, por duas vezes, do quadro “Se vira nos 30”, do Domingão do Faustão. Também já foi atração no programa Brothers, da Rede TV.

Mas nem todas estas aparições trazem boas recordações. Os jurados do programa Astros desmereceram a técnica de reproduzir instrumentos musicais com a boca e Rodrigo Beatbox não alcançou o conhecimento desejado, embora hoje não lhe faltem convites para animar e se apresentar em bailes, festas e casamentos. “Fiquei entre os 10 melhores e fui bem elogiado. O vídeo que está no YouTube tem quase um milhão de acessos e vejo nisso o reconhecimento ao meu trabalho”, afirma.

Porém, como a vida no hip-hop ainda não é fácil no Brasil e está distante de ser fonte de renda exclusiva para grande parte dos iniciantes, Rodrigo trabalha em uma concessionária de motos, que o patrocina. Como sonho, ele conta que deseja viver apenas do trabalho como beatboxer. “O mundo está cheio de violência, crime, tudo que não presta. Minha meta é, através da minha vida, passar uma mensagem positiva, de transformação”, finaliza.

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Por: Jéssica Balbino





Bocada - Forte ::: Entrevista
"Hip-Hop: Dentro do Movimento" - Cultura ganha mais uma obra literária

Data: 20/01/2011
















Escritor Alessandro Buzo lança sétimo livro e traz um panorama da cultura hip-hop no país




“Minha disposição vem do amor que eu tenho pelo hip-hop (...)”. Essa é uma das frases de Nelson Triunfo, considerado o pai do hip-hop no Brasil, um dos entrevistados por Alessandro Buzo no livro "Hip-Hop: Dentro do Movimento". Assim como ele, as mais de 60 pessoas que foram entrevistadas por Buzo revelam, mesmo com pontos de vista diferentes, grande amor pela cultura hip-hop, que completa, em 2011, 37 anos de existência em todo o mundo. Com ousadia, Alessandro Buzo se propôs a fazer o livro em apenas três meses. O trabalho, como define Heloísa Buarque de Hollanda, curadora dacoleção Tramas Urbanas, se parece com uma “conversa de mano para mano”. A mesma série já lançou títulos de Sérgio Vaz, Dudu do Morro Agudo, Jéssica Balbino, Écio Salles e Marcus Faustini.




Por todo o Brasil, do Acre ao Rio Grande do Sul, Alessandro Buzo conseguiu, de certa forma, mapear o hip-hop e transformá-lo em entrevistas, passagens, momentos, sem ter seguido uma cronologia específica ou adotado uma linha de pesquisa convencional. Ligou o gravador, mandou e-mails e fez as perguntas que todos gostariam de fazer. Transcreveu as respostas de ícones da cultura e de anônimos. Trouxe às páginas da literatura brasileira uma história ainda pouco contada e compreendida.




Esta é a sétima obra do escritor, nascido e criado no Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo – que, além disso, já produziu quatro volumes da coletânea "Pelas Periferias do Brasil". Palmeirense “verde”, é apaixonado pelo hip-hop, pelo filho Evandro e pela esposa Marilda. Já produziu o filme "Profissão MC", é repórter do quadro Buzão Periférico, no programaManos e Minas (TV Cultura) e organiza, desde 2004, o evento Favela Toma Conta.




Confira abaixo um breve bate-papo com Buzo, sobre o livro:




Central Hip-Hop (CHH): Por que você decidiu fazer um livro sobre o hip-hop e chamá-lo de Dentro do Movimento, uma vez que você se encaixa no conhecimento, que é considerado o “quinto elemento”, e não necessariamente nos outros quatro (MC, DJ, dança de rua e graffiti)?
Alessandro Buzo (Buzo): De Dentro do Movimento porque vivo intensamente o hip-hop, é o estilo musical que mais ouço. Promovo eventos de hip-hop há anos, considero o conhecimento (livros e filmes) o quinto elemento e os entrevistados também eram "de dentro ".




CHH: E Como foi escrever um livro tão grande, com tantas entrevistas, em tão pouco tempo (três meses)?
Buzo: Foi um processo cansativo, e diria até estressante. Na verdade, três meses eram o prazo que eu tinha, mas atrasou um pouco e o processo todo foi de cinco meses. Mas organizar na mente tantas entrevistas, separar por assuntos e costurar tudo deu um desgaste grande, psicologicamente falando.




CHH: Como você espera que os adeptos do hip-hop recebam este livro?
Buzo: De braços abertos, porque mesmo não tendo todo mundo – o que seria quase impossível -, tem muita gente boa e que ajudou a escrever a história da cultura de rua. Acho que este livro vai ser muitíssimo pesquisado. Espero que todos os amantes do hip-hop se sintam representados por mim e por quem participou.




CHH: Na sua visão de escritor, ficou alguma coisa de fora? Alguma entrevista que poderia ter entrado e por algum motivo não deu certo?
Buzo: Como o prazo era curto, fui falando com pessoas que estavam mais próximas no momento, falei com muita gente que por desorganização pessoal nunca devolveu a entrevista respondida e faltaram algumas pessoas com quem eu queria ter falado, principalmente meus amigos Helião e Sandrão do RZO, mas não deu. Era muita coisa ao mesmo tempo e alguns ficaram de fora. Não sei se o livro seria melhor com quem não entrou, mas alguns eu queria ter feito e não fiz. Teve duas pessoas que disseram: “Não quero participar”. Assim, diretamente, falar “não” foram só duas, teve outras que não devolveram a entrevista – uns, talvez, não quiseram e outros por pura desorganização pessoal, tenho certeza em alguns casos. Não vou dizer quem foram os dois que disseram “não”, porque todo mundo tem o direito de participar do que quiser. Fiquei um pouco chateado porque eram pessoas importantes e por quem eu tinha máxima admiração, e não entenderam minha proposta. Faltou, talvez, falar com o Mano Brown, mas não estava no pique de tentar. Sempre que trombo ele está cercado de muita gente, tenho dois outros projetos que queria propor para ele, mas nunca vi uma chance de conversar com calma, sem ser no evento com um monte de gente junto. Então deixei no gelo, mas queria, é claro, ter falado com ele.




CHH: Existem vários livros sobre a cultura hip-hop e parece que sempre tem algo novo para contar. Como você encara isso, mesmo sabendo que fez o livro o mais completo possível?
Buzo: O hip-hop não tem dono. Ninguém vive tudo do hip- hop. Se você vive o hip-hop na zona sul de São Paulo, que é uma grande referência, não quer dizer que conheça o hip-hop do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, da Bahia, de Goiás, do Acre... Escrever um livro completo me parece impossível. O meu é o melhor que me foi possível fazer.




CHH: Mesmo com a experiência de vários outros livros escritos, qual foi a sua dificuldade neste trabalho especificamente?
Buzo: Falar com as pessoas. Para cada uma, tinha que explicar o processo, fazer o cara entender que não tem grande grana envolvida. Um rapper com quem eu queria muito falar me perguntou: “E os direitos autorais?”. Mano, é só uma entrevista que, em vez de sair em um site, vai sair em um livro que é eterno, mas o meu cachê pra escrever foi muito pouco, não fiz pelo dinheiro. Só acredito que o livro vai ser um documento do movimento. Muitas coisas importantes foram narradas em suas paginas.




CHH: Das mais de 60 entrevistas feitas, o que você pôde absorver? Elas mudaram, de alguma maneira, a sua visão sobre o hip-hop? Acrescentaram algo ou obrigaram você a pesquisar ainda mais?
Buzo: Com certeza me trouxe algumas reflexões. É “loko” como a mesma pergunta tem respostas tão diferentes de duas pessoas ou mais. É incrível como tem pessoas super otimistas e outras pessimistas quanto ao futuro do hip-hop. Eu, como sou do time dos otimistas, tive que aceitar e publicar opiniões diferentes da minha. Mas, ao final de tudo, continuo pensando a mesma coisa do hip-hop: “É o que eu quero para o meu filho e, se quero isso para ele, posso indicar para os filhos dos outros também”.




CHH: Gostaria de tecer considerações finais?
Buzo: Obrigado pelo espaço e pela oportunidade novamente. Muito hip-hop e literatura para todos!“Odeie o seu ódio” e “Mais amor, por favor”. Essas duas frases não são minhas, tirei de pichações que vi pela cidade. Amo o graffiti e respeito a pichação. Paz, saúde e sucesso a todos. E não deixem de ler o livro.




















MATÉRIAS


Bocada - Forte ::: Palavras & Afins
Elo da Corrente: quatro anos de poesia do lado de lá da ponte

Data: 17/06/2011


















Sarau feito no Bar do Santista, em Pirituba, completa quatro anos de resistência e comemora oito livros lançados




Estamos “do lado de cá da ponte”. O acesso é difícil. Ônibus, trem, e uma caminhada pelas vielas da zona oeste de São Paulo. Com o rio que divide o bairro e num espaço que mistura livros, instrumentos musicais e um bar, acontece, há quatro anos, o Sarau Elo da Corrente.




O projeto Elo da Corrente foi criado pelo casal Raquel Almeida e Michel Yakini , em 14 de junho de 2007, no Bar do Santista, no mesmo dia do lançamento do livro Desencontros, de Michel.




A ideia surgiu a partir do hip-hop e do programa “Voz da Periferia”, na rádio comunitária Urbanos, na mesma época em que Raquel cantava no grupo Alerta ao Sistema. O desejo se ascendeu após uma visita ao sarau da Cooperifa, no extremo sul da capital. “Voltamos extasiados, daí sentimos a necessidade de ampliar o acesso a literatura e criar um espaço de confraternização com a comunidade”, conta Raquel.




Aconchegante. Essa é a palavra que o aposentado Oswaldo Balbino usa para definir o sarau, que ele visitou em outubro de 2010. “De todos [os sarais]que já fui, é o que mais fiquei a vontade. Gostei do jeito das pessoas e do clima acolhedor”, lembra.




Todas as quintas-feiras - exceto a última do mês - essa confraternização acontece, são os elos comunitários, que formam e fortalecem, cada vez mais, a corrente.

Frequentadores, escritores e publicações

A simplicidade e energia do local determinaram o sucesso da empreitada, que hoje emociona quem visita o sarau. “A primeira vez que estive no Elo da Corrente foi em 2008. Eu lembro como se fosse hoje. Era o lançamento do livro Duas Gerações – Sobrevivendo no Gueto, das escritoras Raquel Almeida e Soninha M.A.Z.O. . Esse foi um dia muito marcante, pois fui muito bem recebido. Não é a toa que freqüento esse lugar até hoje. Cada sarau tem seu estilo e o Elo da Corrente tem um estilo mais que especial. Admiro muito os poetas da casa e todo esse coletivo maravilhoso, que há anos vem fazendo histórias no bairro de Pirituba”, conta Levi de Souza, conhecido também como Fuzzil, que em 2011 lançou seu livro Caturra, pelo selo editorial Elo da Corrente.




E não é só ele que tem livros publicados pelo selo. O que começou com simples reuniões para declamar poesias se tornou uma editora de livros da literatura marginal, a começar pelo dono do bar, o Santista, que lançou o livreto Prosas de Buteco, junto com Paulinho Bispo, que publicou algumas poesias. Ambos freqüentadores do sarau e já com afinidade com a escrita.




Daí em diante, a demanda de pessoas que escreviam há anos e deixavam os escritos engavetados cresceu e a contemplação do sarau com o edital Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) viabilizou oito publicações, além de debates e outros eventos, que acontecem durante o sarau, como a Festa dos Ibejis, em homenagem às crianças, durante o mês de outubro.




Empréstimos

Uma biblioteca no bar. Ação cultural que está se transformando em costume na capital paulista e tem seus efeitos também em Pirituba.




No local, o empréstimo é livre. A pessoa percorre a prateleira, com inúmeros títulos da literatura marginal, escolhe o que lhe agrada, anota o nome num caderno que o dono do bar, o Santista, mantém e devolve depois de uma ou dias semanas. “É uma estante pequena, que fica no bar, mas, quando olhamos o caderno de empréstimos, vemos como flui. Muitas pessoas pegam e isso já nos deixa contente, por vermos que está fluindo de verdade”, considera Raquel.

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Sarau Elo da Corrente - Como ChegarDe ônibus:

Centro: Jd.Líbano/Pça Ramos - 8677/10 ou 31 (Rua Xavier de Toledo)

Lapa: Santa Mônica/Terminal Lapa - 8004 (Dentro do Terminal)

Pirituba: Santa Mônica/Terminal Pirituba -8008 (Dentro do Terminal)

Pinheiros: Jardim Nardini/Itaim Bibi - 958P (Av. Faria Lima)




De Trem:

Estação Pirituba: Linha Luz - Fco. Morato ( E pegar ônibus no Terminal Pirituba)

Descer na Rua Jurubim (segundo ponto -Jardim Monte Alegre)

Pela Webelo-da-corrente.blogspot.com

elodacorrente@hotmail.com

Skype: elo.da.corrente


Fotos: Sonia Regina Bischain









Bocada - Forte ::: Artigo
Elo da Corrente: Construções, problemas e resistência

Data: 17/06/2011




Organizadores do sarau falam sobre o cotidiano de superação dos obstáculos




Como tudo é mais difícil na periferia, até sarau na chuva já aconteceu. E a força da água foi tanta que Raquel recomenda. “Foi o sarau mais lindo e emocionante que já participei. Sarau na Chuva, eu recomendo”.




O bar do Santista foi denunciado por barulho. A vizinhança alegou que nas noites de quinta-feira os freqüentadores batucavam até às 6h da manhã e a fiscalização fechou o local por um período. “Resolvemos fazer o sarau de qualquer maneira, nem que fosse na rua. Assim, usamos o quintal de casa. Colocamos uma lona fininha, pois não tinha indícios de chuva. Veio gente de todo lugar participar desse sarau, pois foi uma forma de protesto contra o fechamento do bar, mas, no meio do sarau começou a chover forte, a lona rompeu e na hora todo mundo ficou olhando para cima, naquele clima de “e agora?””, relata.




E foi nessa hora que o Vagnão, do Sarau da Brasa pegou o atabaque e começou a cantar. A energia contagiou os demais participantes, que começaram a cantar junto. “Se transformou numa festa. Cantamos, dançamos na chuva e na verdade, não atrapalhou em nada. Veio para lavar nossas angústias”,completa Raquel.




Hoje, um espaço está sendo construído ao lado do Bar do Santista e os saraus passarão a ser realizados lá. Enquanto isso não acontece, o local pequeno, mas acolhedor, continua sendo o espaço onde os poetas vão para tentar mudar um pouco a realidade do bairro, nem que seja por duas horas semanais. Quem é freqüentador reconhece o valor do projeto, como o educador, MC, produtor e poeta Israel Neto, 24 anos. Para ele, o Elo da Corrente é um ponto de encontro diferente. “É familiar, de amizades, onde a poesia é vivida de forma respeitosa em todos os sentidos. Ir ao Elo da Corrente é se reencontrar com a poesia de raiz. Quando fui, pela primeira vez, me senti tão bem recebido que me senti importante. Parabéns a Raquel e o Michel pelo trabalho de resistência . Espero que a simplicidade continue sendo o pilar desse movimento, que é um dos mais importantes da cidade de São Paulo”, define.




E assim segue o sarau, que desperta poetas da comunidade, traz poetas de outras cidades e estados e como define Raquel: “o prazer é fazer com que a literatura seja mais comum nas nossas quebradas, seja viva, seja gritante, questionadora, penetrante. Isso faz diferença. Não queremos que tenha limites, pois a arte não tem. Se te limites,a arte é hipócrita”, pontua.




Assim, confraternizar com os amigos, olhar no olho de todos, compartilhar ideias e fazê-las acontecer são diferenciais do sarau, que renova os criadores.




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Por: Jéssica Balbino






»4/01/2012 15:49 - por: jessicabalbino
Foi…2011: Literatura Marginal


O ano da consolidação da cena contemporânea no país










Efervescência. Gosto dessa palavra e acredito que ela serve para resumir a atual cena literária no país. Os escritores contemporâneos somos nós, que, oriundos das periferias, criamos espaços próprios, diálogos próprios e improváveis e estamos escrevendo, de próprio punho, a nossa história.


Foi em 2011 que este cenário completou sua primeira década de solidez no Brasil, com o aniversário de 10 anos do Sarau da Cooperifa, comemorado com a 4ª Mostra Cultural, em mais de duas semanas de atividades por toda periferia paulistana. Além disso, realizou várias atividades já no calendário do sarau, como o Ajoelhaço, o Poesia no Ar e a Chuva de Livros, bem como as tradicionais sessões de cinema na laje.


Foi também o ano em que Alessandro Buzo entrou em seu 11º ano de carreira e lançou – pasmem – cinco livros, por editoras, de maneira independente e mais, solidificou o espaço da periferia no centro de São Paulo, com a última ação do ano, o Festival Suburbano Convicto, que realizou sete lançamentos numa única noite e apresentou ao mundo velhos e novos escritores, numa antologia “Poetas do Sarau Suburbano Convicto – Ritmo e Poesia” e mais, abriu espaço, democraticamente, a escritores como Emerson Alcalde, que começou no teatro e somente em 2011 lançou duas obras “(A) Massa” e “O Boneco do Marcinho”.





Aconteceu nesta noite também o anúncio: o Sarau Suburbano Convicto passa a ser semanal. Toda terça-feira. E fica a pergunta: existe público para isso?


Talvez faltem saraus para tanta vontade de frequentá-los. Somente na capital paulista há pelo menos 40 saraus acontecendo em periferias. Todos eles com seus públicos crescentes, descobertas de novos autores, publicações de antologias, como a novidade do Coletivo Perifatividade, que publicou autores conhecidos e desconhecidos numa antologia, com o subtítulo: sarau – música – opinião – leitura.


E é assim mesmo, em verdadeiros quilombos que o público se forma, produz, analisa, debate, se conscientiza e parte, com a caneta, o caderno e os livros nas mãos. A guerra já foi declarada e parafraseando Alessandro Buzo “pensavam que não sabíamos ler e estamos escrevendo livros”. Somente na Cooperifa, mais de 30 livros foram lançados em 2011. No Sarau Suburbano Convicto, pelo menos um a cada mês. Sem falar dos lançamentos não registrados em todos os outros saraus que acontecem Brasil afora.


A invasão da literatura marginal em festivais literários também foi latente. Tivemos representantes na Flip em Paraty e no Flipoços em Poços de Caldas. Um deles, com o lançamento de dois livros. Sacolinha, veterano da literatura, arriscando-se para novos públicos com o “Peripécias da minha infância” e levando ao mundo o “Estação Terminal”.


Festivais feitos do povo para o povo também aconteceram, como o 1º Festival de Literatura Marginal da Praia Grande, no Sarau das Ostras. Que deixou a grande São Paulo e migrou para a baixada santista. No Distrito Federal o sarau Samambaia também cresce. Indo mais além, a produção literária também invade outros locais, como o Rio de Janeiro, com o livro “Da favela para as favelas” do repper Fiell. No município de Cravinhos, o escritor André Ebner toca o projeto “Biblioteca na Calçada” e forma pequenos leitores, atendendo o público infantil e adolescente.


Por falar em arriscar, a inovação, talento e qualidade literária de Rodrigo Ciríaco não pode passar despercebida em 2011 com o lançamento do “100 mágoas”. Prefaciado por Marcelino Freire, que circula entre saraus e debate literatura marginal com sua acidez peculiar, o livro de Ciríaco conquista pelo cuidado, pelo preparo, pelo conceito que emite ruidosamente logo no título e mais, o conto de mesmo nome, interpretado por ele na Cooperifa e musicado no projetoMarginaliaria.





Do campo da música para as letras impressas, Renan Inquérito também inovou e fechou o ano com uma turnê literária para o lançamento do projeto #PoucasPalavras, que inclui um livro de bolso com poesias concretas, ilustrações do graffiteiro Mundano, fotografias de Márcio Salata e ainda um videoclipe, dirigido por Vras77, que homenageia os escritores da literatura contemporânea passando por vários locais como interior de São Paulo, Brasília e até mesmo a Assembleia Legislativa de Santa Catarina.


O veterano José Sarmento também fez historia em 2011. Escritor há muito tempo, encontrou espaço nos saraus da periferia o que faltava para divulgar sua literatura e com o livro “Bixiga – um cortiço dos infernos” conquista a crítica. Escreve muito bem.


Por fim, em 2011, o anúncio do lançamento do “O Hip-Hop está morto” de Toni C., traz ao cenário ficção, reflexão e mais um capítulo escrito no grande livro que surgiu no Bronx nos anos 1970 e segue até hoje tentando ocupar espaço com seus elementos e entre eles, do que tratamos aqui: conhecimento.





No entanto, a dica de 2011 para 2012 fica para o universo feminino, que ainda precisa de expansão e crescimento neste cenário. Temos a escritora e jornalista Elizandra Souza, num belíssimo trabalho, além de outras mulheres que surgem em antologias e a poetiza Nina Silva, ao lado de Akins Kintê no livro “InCorPoros”, e Tiely Queen, com seu blog de poesias, mas, quem sabe a meta para 2012 sejam mais mulheres escritoras no nosso universo da literatura marginal.


E ocupando as prateleiras de livrarias como Saraiva, Nobel, Cultura e Travessa, os livros da chamada literatura marginal, periférica, divergente, do oprimido ou qualquer que seja o nome que queiram adjetivá-la, é literatura, feita por gente – igual a gente, sim – e que cresce a cada dia, não apenas na qualidade, nas letras impressas e nos saraus que pipocam mundo afora, mas cresce ao fazer crescer seres humanos.


Digo mais. Recentemente conversei com um escritor da chamada “literatura tradicional” e ele reclamou que no Brasil as pessoas lêem pouco. Não é o que comprovo em oficinas literárias das quais participo. Em zines que surgem em todo momento. Em escritores periféricos que editam seus próprios livros e batem recordes de vendas de mão em mão. E assim, desmistificamos a lenda e mais, ocupamos espaço nas vitrines e além delas. Temos nossos exemplares em livrarias especializadas, sites especializados, lojinhas das quebradas e nas mochilas, onde é possível se praticar o “tráfico de conhecimento”.


E já em 2012, além da volta das resenhas de literatura marginal aqui no Central Hip-Hop, comemoramos a boa notícia, que chegou nesta manhã do terceiro dia útil do ano. O escritor e criador da Cooperifa, Sérgio Vaz concorre a duas categorias “Inclusão Cultural e Destaque Cultural” no Prêmio Governador do Estado, concedido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, que premia vários segmentos culturais como artes visuais, cinema, circo, dança, inclusão cultural, música, teatro e destaque cultural.


E assim seguimos, declamando e escrevendo a história das periferias brasileiras neste século XXI.







Bocada - Forte ::: Reportagem
Blogs impulsionam criação literária nas periferias

Data: 25/03/2010






















Literatura Marginal é fortalecida por meio da produção de textos em blogs por todo país




Assim que se levanta, o escritor, empresário e agitador cultural Alessandro Buzo se conecta a Internet e atualiza os oito blogs que tem. Às vezes ele posta, mais de uma vez ao dia, notícias e textos literários nos canais de comunicação que ele mesmo administra.




Mas nem sempre foi assim, antes de ganhar o mundo virtual, Buzo foi vendedor e passou por maus bocados até conseguir lançar o primeiro livro de forma independente em 2000. Daí em diante, não parou mais e hoje já soma cinco livros publicados e mais três em processo de confecção, previstos para serem lançados ainda este ano. Atribui a divulgação do próprio trabalho aos blogs, por onde consegue efetuar vendas de exemplares de vários autores das periferias. Além disso, organiza coletâneas com a participação de escritores independentes de todo Brasil, com quem, normalmente, faz contato através de blogs. “O blog é uma ferramenta que impulsiona a literatura. Antigamente o texto ia para a gaveta e hoje vai para o blog. Pode ser lido por qualquer pessoa no mundo. Na gaveta ele morria e no blog cria asas”, considera. Nesta linha, Buzo mantém o blog Literatura Periférica, onde abre espaço para colunistas de todos estados do país, estimulando, mais uma vez, a criação literária.




Um dos colunistas é André Ebner, da cidade de Cravinhos, São Paulo. Há dois anos e meio ele tem o próprio blog, além de escrever frases e pensamentos para o Literatura Periférica. “A Internet é uma ferramenta poderosíssima para a liberdade de pensamento”, considera o jovem que está escrevendo o primeiro livro de poesia. O escritor Jeferson, conhecido como Tubarão, da baixada santista, também é um dos colunistas do blog e já se lançou como escritor na coletânea Suburbano Convicto – Pelas Periferias do Brasil, organizada por Buzo. Para ele, que visita diariamente vários blogs de amigos e outros escritores, se um blog for direcionado, pode ser uma ferramenta impulsionadora da literatura. “É um meio que cada um tem de se expressar à sua maneira. É uma mídia livre”, pensa.
No mesmo estilo há o blog Literatura Suburbana, que através do coordenador Israel Neto, faz publicações de livretos de poesias de vários escritores. “No último ano cerca de 30 escritores participaram do projeto e publicamos seis livretos, além de oficinas de produção literária e saraus”, define.
Outro escritor e agitador cultural que atua na blogosfera e promove a literatura é Michel da Silva. Atuante no movimento literário-cultural Elo da Corrente em Pirituba- SP, ele pensa que a literatura depende da relação do escritor. “Para ser viva, instigada e os blogs são uma ferramenta moderna para contemplar esta dinâmica. Estamos criando um movimento forte de comunicação”, coloca.
Famoso por ser um dos pioneiros nesta arte, o escritor Ademiro Alves, conhecido como Sacolinha também tem um blog próprio, onde divulga a própria agenda de eventos e também os da periferia de Suzano, em São Paulo, onde vive e trabalha. “Se o espaço do blog for bem utilizado pelos autores das periferias, só tende a crescer e impulsionar ainda mais pessoas. Costumo ler os blogs antes mesmo de ler os jornais”.
Filho desta geração, Danilo Henrique, de Salvador, Bahia, é um adepto dos blogs e influenciado pelos escritores da literatura marginal, criou o próprio espaço que procura alimentar com textos da própria autoria. “Neste ano vou procurar 2010 maneiras de viver a vida e descobrir coisas novas. Uma delas é ter um blog, divulgar meus textos e me envolver com literatura”, pontua.


A cientista social e pesquisadora do fenômeno da literatura periférica, Érica Peçanha do Nascimento diz que estes escritores desempenham atividades culturais conjuntas e divulgam os trabalhos uns dos outros, sobretudo nos blogs, onde recomendam livros e publicam entrevistas. O comportamento é justificado pela afinidade dos temas, do tipo de literatura produzida e da amizade. “A relação estabelecida entre suas produções literárias e uma determinada realidade social desencadearam relações de amizade entre eles e uma atuação cultural em comum”, acredita.




Por: Jéssica Balbino




Bocada - Forte ::: Reportagem
"Je suis favela": literatura marginal brasileira chega à França

Data: 11/03/2011


















Sacolinha, Alessandro Buzo e Rodrigo Ciríaco têm textos traduzidos na coletânea de contos Je Suis Favela, lançada em Paris
“Je suis favela”. Eu sou favela. A expressão comum nas periferias de todo o Brasil está traduzida para o francês, mas não, ela não perdeu sua singularidade. Continua sendo dita por quem realmente representa a favela. E representa tão bem que ganha espaço para fazer isso lá fora. Representantes da literatura marginal tupiniquim, Alessandro Buzo, Sacolinha, Rodrigo Ciríaco e Ferréz furam o gueto da exclusão em que foram colocados e têm seus textos publicados na França. Por meio da editora Paula Anacaona, terão contos publicados na antologia Je Suis Favela, da Anacaona Editions.

O lançamento da obra será feito nesta segunda-feira (14/3), na Librairie OFR, em Paris - capital do país em que a leitura atinge média anual de sete livros por habitante, contra a média brasileira inferior a um livro. A repercussão de seu trabalho suscita sentimentos variados nos autores, selecionados através de blogs e publicações brasileiras.

Para Rodrigo Ciríaco, professor, arte-educador e autor do livro Te Pego Lá Fora, a perspectiva é a melhor possível. “Só de ter chegado à França, já é uma maravilha. Eu queria estar lá, mas aí já seria demais. Ou não”, brinca, lembrando que, recentemente, esteve fora em países como Alemanha e França, e ainda está pagando as despesas. “Faria tudo de novo”, orgulha-se, ao lembrar que teve a oportunidade de levar a literatura nacional a uma escola francesa que ensina português e de lançar sua obra em uma livraria especializada em literatura afro-luso-brasileira. “Isso aconteceu com pessoas que nunca me viram, mas foram lá por conta do meu trabalho. Literariamente falando, o ano começou bem.”

O escritor Sacolinha, que adotou definitivamente o apelido como nome de escritor no lançamento dos títulos Graduado em Marginalidade, 85 Letras e Um Disparo, Peripécias da Minha Infância e Estação Terminal, encara o lançamento e a participação na coletânea francesa como uma oportunidade para mais contatos, referência e respeito. “Com isso, a gente consegue chamar mais a atenção e conquistar a molecada, já que ainda são poucas as referências que eles têm na periferia”, pontua.

Já Alessandro Buzo – que acumula sete títulos lançados no Brasil -, quando questionado sobre o que espera da publicação, revela que não cria expectativas e, por isso, tudo o que conquistar com essa incursão internacional será bem-vindo. Porém, ele faz considerações sobre o tema. “Falamos de periferia e hoje está ´na moda`. Não digo moda cultural, e sim de grandes empresas de olho em como dialogar com a nova classe média brasileira, gente que tem viajado de avião, comprado carro, telefone celular, televisão, computador, etc”, opina. “Só nós que pisamos no barro podemos saber qual é a real de uma quebrada. Não adianta pesquisar, tem que ter um conhecimento e viver isso no seu dia a dia. É um gingado e malandragem de um povo honesto e trabalhador. Agora não precisamos mais que venham fazer teses sobre a gente. Queremos, sim, escrever nossa própria história.”

Por outro lado, Ciríaco não acredita que a publicação mude muita coisa, mas espera que a produção literária da quebrada se engaje ainda mais. “Pode confirmar aquilo que já sabíamos: que ´nóis é possível`. É possível continuar escrevendo e melhorar, fazer ainda mais. Literatura, letramento da quebrada, é um avanço. Temos que deixar de conhecer apenas os artigos 121 e 157, e conhecer a Constituição inteira”, frisa.

A editora Paula Anacaona destaca que resolveu incluir os autores na coletânea porque eles representam a ´jovem guarda`, e fez questão de misturar a literatura periférica com a convencional. Com uma editora recém-criada, ela já lançou na França o livro Manual Prático do Ódio, de Ferréz. “Eu pensei: é essa literatura marginal que quero divulgar na França. E surgiu essa ideia da coletânea, porque tinha tantos autores que eu queria publicar e não sabia com qual começar”, explica.

Feliz com o resultado da obra Je Suis Favela, ela conta que muitas fotografias ilustram a ficção. Além do óbvio “muito sucesso” esperado, ela conta que aguarda uma divulgação desse tipo de literatura na França, uma vez que o livro conta também com o escritor Marcelino Freire, entre outros. “Tem pouco da literatura periférica aqui na França, além de muitos problemas também nas periferias – que são diferentes das do Brasil, pois têm mais a ver com a imigração ou a identidade. Mas acho que eles também teriam muito a escrever. Será que esse livro vai incentivar os franceses periféricos a escrever? Que legal – eu ficaria muito feliz”, almeja. Os planos da editora não param por aí. Paula planeja lançar obras individuais de todos estes autores na França. Por enquanto, Je Suis Favela só estará disponível em francês, sem previsão de lançamento em português.

Para finalizar, Ciríaco deixa uma mensagem que resume a voz da literatura marginal no Brasil: “Muito trampo, raça e coragem, porque a literatura não pode parar”.

O livroJe Suis Favela é uma coletânea composta por 22 contos e 60 páginas de artigos de imprensa, que faz uma análise profunda da realidade da favela. Além de Sacolinha, Buzo e Ciríaco, a obra reúne os escritoresMarçal Aquino, Ronaldo Bressane, João Anzanello Carrascoza, Ferréz, Marcelino Freire e Victoria Saramago.

O lançamento será realizado na segunda-feira (14/3), na Librairie OFR (20 rue Dupetit Touars, 75003, Paris). A festa de lançamento terá a presença do cantor Solo, do antigo grupo de rap Assassin, que deverá ler alguns contos durante o evento.

Por: Jéssica Balbino





Bocada - Forte ::: Entrevista
Suburbano Convicto: Alessandro Buzo celebra 10 anos de carreira

Data: 24/09/2010















Em comemoração a seus 10 anos de carreira, o escritor, apresentador de TV, cineasta e agitador lança o livro independente Buzo 10, com 10 crônicas




Diariamente, ele enfrenta mais de duas horas de trem, entre Itaim Paulista e o bairro do Bixiga, no centro de São Paulo, onde administra a livrariaSuburbano Convicto. Participa de saraus, encontros, debates e palestras, e viaja por todo Brasil. Responde e-mails, atualiza todos os blogs que tem, cuida da esposa, do filho e ainda concilia o tempo com a diversão - o que inclui livros, filmes e a cervejinha. Coleciona, além de livros – está lançando seu sexto título -, amigos e admiradores por todo o país, que carrega consigo, ajudando e dando a primeira oportunidade a novos escritores, na coletânea Pelas Periferias do Brasil.

Alessandro Buzo não para. E, enquanto atualiza seu microblog no Twitter, parece se desdobrar em vários, para dar conta de tantos compromissos e realizar todos com precisão e profissionalismo. Também é apresentador de TV (com o quadro “Buzão Circular Periférico”, no programa Manos e Minas, da TV Cultura) e cineasta, tendo produzido o filme independente Profissão MC, protagonizado por Criolo Doido. Cheio de ideias, também criou o Espaço Suburbano Convicto, na zona leste da maior cidade brasileira.




Buzo, que completa 38 anos neste sábado (25/9), está lançando o livro Buzo 10, com 10 crônicas, celebrando seus 10 anos de carreira. Assim, este ´suburbano convicto` se alimenta de cultura e não deixa de distribuí-la por onde passa, sendo o dono da primeira livraria do Brasil especializada em literatura periférica. Confira, a seguir, uma entrevista com este inquieto escritor e agitador cultural:




Central Hip-Hop (CHH): Fale um pouco sobre seus 10 anos de carreira e sobre as diversas atividades que desenvolve.

Alessandro Buzo (Buzo): Sou escritor, apresentador e cineasta. Desde o lançamento do meu terceiro livro, vi que era isso mesmo que eu pretendia fazer o resto da vida: trabalhar com cultura. Mas um marco foi quando me libertei do trabalho em uma empresa e passei a viver só dos meus ´corres` culturais, isso foi de 2007 para 2008. São poucos que, hoje, conseguem viver só da cultura, e me orgulho de ser um deles.




CHH: Qual foi o principal ponto de mudança? O que você acha que determinou que mudasse de profissão - e de rumo - e chegasse hoje aos 10 anos de carreira?

Buzo: Acreditar nos sonhos mais loucos que eu tive. Se não fosse assim, não teria lançado todos esses livros, não teria feito um filme sem dinheiro, não teria conseguido chegar à TV Cultura. A coragem de fazer e depois ver no que ia dar foi determinante. As pessoas, muitas vezes, não fazem porque esperam outras pessoas acreditarem nos projetos. Eu sempre acredito antes de qualquer um.




CHH: Como é completar uma década dentro hip-hop e, principalmente, dentro da literatura periférica, ainda pouco reconhecida?

Buzo: Ainda é muita "resistência", porque os espaços não são muitos e tem muita gente no corre, procurando se destacar. Para mim, completar 10 anos e estar com tantos bons projetos em andamento é motivo de alegria e satisfação pessoal. Cheguei até aqui sem pisar em ninguém e ainda trazendo muita gente comigo.




CHH: Este seu sexto livro está sendo lançado de maneira independente. Como é isso? Apesar de você já ter trabalhado com duas editoras, nenhuma delas quis abraçar o projeto dos 10 anos de carreira?

Buzo: É um livro comemorativo, com 10 crônicas sobre esses 10 anos. Não é um projeto assim tão “comercial”, então nem procurei editora. Mas nesse ano ainda lanço meu sétimo livro, Hip-Hop - De Dentro do Movimento, e de novo vai ser pela Aeroplano Editora. Para mim, é tranquilo. Uns podem sair por editoras e outros pelo selo que estou lançando, o Suburbano Convicto Edições.




CHH: Você é proprietário da primeira livraria do Brasil especializada em literatura marginal, um local em que recebe inúmeros amigos de todo o Brasil e oferece produtos voltados para a cultura hip-hop, além de um grande acervo. Isso sem falar nos saraus, debates e eventos que você promove no espaço. Você acha que, com isso, está inovando no modelo de livrarias do país, assim como fez com o modelo de literatura?

Buzo: Acho que sim. A livraria é cada vez menos comércio apenas, e está se tornando um centro cultural. Acho que isso ajuda e muito a ter uma identidade própria, mas, quanto a ser exemplo para outras livrarias, só o tempo irá dizer.




CHH: Quando você decidiu que seria escritor e não mais assalariado, e que viveria de cultura, imaginou, em algum momento, como estaria hoje, 10 anos depois?

Buzo: Passei sete anos desses dez fazendo as duas coisas. Só em 2008 é que, de fato, consegui deixar a empresa em que eu trampava, vendendo alimentos para restaurantes, e me tornar apenas o Buzo dos corres culturais.




CHH: Nesses 10 anos, qual foi o pior momento?

Buzo: Foi entre 2002 e 2003. Eu estava endividado, desanimado, tinha lançado meu primeiro livro em 2000 e não tinha nenhuma perspectiva de conseguir publicar o segundo, o que só aconteceu em 2004. Nessa época, eu estava passando por sérias dificuldades financeiras e foi o pior momento desses 10 anos. Mas... nada como um dia após o outro dia.




CHH: Em alguma ocasião você pensou em desistir?

Buzo: Sim. Nesse tempo, pensava que não tinha passado de uma ilusão ter lançado um livro. Eu estava sem rumo e sem motivação, mas sempre que pensava em desistir vinha uma entrevista, uma matéria, uma palestra, e me mostrava que o sonho não tinha acabado. Um dia, estava desanimado e o Helião me ligou para convidar para sair nas fotos do encarte do CD Evolução É Uma Coisa, do RZO. Essas coisas me motivavam nos piores momentos.




CHH: E qual foi o melhor momento?

Buzo: Foi o lançamento do meu filme com a Galeria Olido lotada, é cada vez que uma pessoa diz que leu um livro meu e curtiu, quando dizem que acompanham meu quadro na TV...




CHH: Você imagina como estará sua vida nos próximos 10 anos? Tem planos?

Buzo: Tenho sim. Quero lançar outros livros e filmes, quem sabe com um programa de TV em vez de um quadro. Quero estar empregando pessoas pra trabalhar comigo, quero ter minha casa própria e mais estrutura.




CHH: Entre os inúmeros projetos que você tem atualmente, qual deles lhe dá mais prazer? Por que?

Buzo: Lançar um livro novo me dá prazer, ter o quadro na TV me dá prazer, porque estou mostrando uma periferia que o Datena não mostra. Ver meu filme sendo exibido me dá prazer.




CHH: Você se considera uma referência da literatura marginal brasileira? Por que?

Buzo: Acho que outras pessoas devem achar isso. Eu só faço as coisas, não com esse intuito, só vou fazendo. "Nóis capota mas num breka!”. Fico feliz quando alguém diz que eu sou referência, mas essa não era minha meta principal. Aconteceu naturalmente.




CHH: O que nunca o perguntaram, mas você gostaria de ter respondido?

Buzo: Eu gostaria de ter respondido que vivemos num mundo mais justo, com menos corrupção e desigualdade social... Quem sabe um dia isso não se torna uma realidade e eu possa responder na entrevista dos meus 20 anos de carreira?
Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Perfil
A história das nossas vidas: por Crônica Mendes

Data: 23/08/2010















Crônica Mendes, poeta e vocalista do grupo A Família, revela particularidades sobre como começou a escrever e compor

De um rádio velho vieram a inspiração e o primeiro contato com a música. Ainda sem saber o que era isso, surgiu o sentimento de que seria possível sobreviver, mesmo diante das necessidades cotidianas.

Sensível e poético desde criança, Crônica Mendes, 30 anos, tem este nome em homenagem à Bíblia e, como ele mesmo define, ao espírito crítico e criador. Define-se como um homem comum, que acredita nas pessoas e principalmente em si mesmo, sem medo de sorrir, chorar, sonhar, errar, sobreviver, discordar. “Sou um sonhador vivendo uma realidade desigual, lutando por dias melhores a todo o momento”, apresenta-se.

Com uma “rotina” que não se repete e sem um dia igual ao outro, ele escreve, visita amigos, vai a comunidades, ao teatro, ao cinema, faz atividades na Fundação Casa, recita poesias no sarau da Cooperifa e guarda tempo para a família e a esposa, a jornalista Nina Fideles. O trabalho e a diversão se casam em meio aos shows e ensaios do grupo de rap A Família, do qual é compositor e vocalista, e articulações de projetos futuros. Quando está em casa - coisa rara -, dedica-se aos devaneios e a alimentar o blog e o perfil na rede social Twitter.

Poeta, escritor, músico e ativista cultural, Crônica Mendes brinca que, se não fizesse isso tudo, estaria morto. “Eu estaria fazendo minha mãe e minha família chorarem muito”, supõe. Por isso, a batalha não para. Crônica Mendes lançou dois clipes este ano. Um, sobre a África, bastante lembrada durante a celebração da Copa do Mundo, lembrando que não devemos nos esquecer dela; e outro sobre o amor e o rap brasileiro. Junto com o grupo, ele trabalha na elaboração do primeiro DVD, com previsão de lançamento entre o final deste ano e o início de 2011.

Com o grupo, ele já desenvolveu um projeto musical e social, consolidando “a transformação por meio do rap”. Trabalhos sociais ligados à saúde pública também já foram feitos, como projetos de conscientização sobre prevenção às DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), além das oficinas de hip-hop "Vivendo A Família", em parceria com a ONG Aliança Revolucionária Jovens em Ação, que leva música, teatro, literatura e esporte a jovens das periferias de Hortolândia, Sumaré e região, no interior de São Paulo.

Crônica Mendes revela que o maior prazer que tem na vida, através do trabalho com o rap e a literatura, é poder se comunicar com as pessoas através da arte. “São pessoas que talvez eu nunca vá conhecer pessoalmente, mas que, em algum momento, minha música e minha poesia trouxe a sensação de conhecer há tempos.” Para ele, mais do que formas de aliviar a dor do cotidiano, ler, escrever, poetizar e musicalizar são uma maneira de organizar a rebeldia do povo, para que esta não seja canalizada de forma errônea. “Isso é o que, de fato, o sistema aguarda. Um erro nosso é julgado por toda nossa vida. Um erro deles é tido como uma gafe singela. Não pode ser assim, nada pode passar batido nem despercebido, como já dizia meu parceiro Gato Preto: ´Periferia informada representa ameaça`”, lembra ele.

Politizado e com discurso afiado, ao ser indagado sobre o que mudou no hip-hop desde que o conheceu, Crônica diz que a cultura sempre foi questionada e que não deve deixar de ser, mas elogia a parte musical. “Ainda podemos melhorar muito mais. Sempre vai ter o que melhorar. Acredito que devemos nos respeitar mais, nos valorizar mais, cuidar melhor do lado artístico, mas sem esquecer de onde vivemos. Ah, e desamarrar a cara e o coração, como diz meu amigo Sérgio Vaz. Mas, tudo é um processo e só não podemos deixar de caminhar na direção certa”, sintetiza.

Sobre sua atuação na literatura, Crônica Mendes diz que não a considera marginal, embora reconheça que seja marginalizada. “Não escrevo para os que a marginalizam, não relato nada para eles. Se eles fazem isso é porque temem e, se temem, é porque me devem. E, se devem, vão ter que pagar o dobro”, filosofa ele, que lançou, em 2009, dois poemas no livro Suburbano Convicto – Pelas Periferias do Brasil (Volume 3), organizado pelo escritor e cineasta Alessandro Buzo. Esta é apenas uma das provas de que ele acredita no que o leva adiante no árduo caminho da periferia. De acordo com Crônica, o grupo A Família vai à luta e não abaixa a cabeça para nenhuma crise criada. Por isso e por todos trabalhos que já desenvolveu, acredita que o hip-hop e a literatura são opções de resgate aos jovens da periferia. “Se eu não acreditasse, não faria parte disso. Mas, se eu faço parte, é porque foi assim que aconteceu comigo. O rap pode transformar o próximo. Os exemplos estão aí para quem quiser conferir”, enfatiza.

Através do blog que tem como uma ferramenta de comunicação, Crônica Mendes se aproxima, a cada dia, dos que estão na mesma sintonia. “Para mim, não basta só cantar, tem que estar presente. Então, como a internet é hoje um dos veículos mais livres e democráticos que temos, precisamos ocupá-la de forma inteligente”, explica. E assim ele tem feito, sem deixar de sonhar, apesar de não conseguir enumerar tudo que almeja conquistar. Quando questionado sobre os sonhos, brinca: “Quero respirar debaixo d´água. Na verdade, tenho muitos sonhos, a maioria comuns. Mas o principal é, de fato, viver melhor da minha arte”. Como recado, Crônica Mendes agradece aos que consomem a cultura produzida por ele. “Minha música já não é minha há tempos, assim como minha poesia também não. Ambas são livres. Ouçam e leiam. É a história das nossas vidas.”
Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Reportagem
A Rima Denuncia: a música e a poesia de GOG lançadas em livro

Data: 25/08/2010




















GOG lança o primeiro livro hoje, às 19h, em Brasília, e pretende percorrer todo o Brasil com o novo trabalho

“A rima tem urgência, o caso é complicado”. Essa é uma das inúmeras frases que podem ilustrar o livro A Rima Denuncia, obra que Genival Oliveira Gonçalves, o GOG, lança hoje (25/8), às 19h, na loja FNAC do Park Shopping de Brasília (DF). Apesar de já ter participado do primeiro volume da coletânea Suburbano Convicto – Pelas Periferias do Brasil (2007), organizada por Alessandro Buzo, A Rima Denuncia é o primeiro grande projeto de GOG no campo da literatura. O rapper segue na contramão dos parâmetros editoriais ao trazer uma publicação com 48 letras de rap.

“Das mais de 100 composições que tenho, escolhi 48 e coloquei no livro. As letras estão dispostas em ordem cronológica de criação. O primeiro capítulo é um breve relato do que acontecia em Brasília no momento de cada composição”, conta o rapper, um dos mais respeitados e politizados do Brasil. O trabalho de compilar as composições não se resume apenas à seleção das letras. O processo teve início quando o poeta e criador da Cooperifa, Sérgio Vaz, teve a ideia de elencar as letras em uma obra e a apresentou ao coordenador da coleção Literatura Periférica, da editora Global, Eleilson Leite, que também coordena a ONG Ação Educativa. “Passei para o Eleilson, que abraçou a ideia e fez a ponte com a editora”, conta Vaz.




Eleilson afirma que transpor as letras para o papel não é algo simples. “No Brasil, são poucos os compositores de rap cuja obra pode ser lida com fluidez e o GOG certamente é o artista mais adequado para isso. Suas composições têm uma poética arrojada como a de poucos”, analisa.




Daí em diante, A Rima Denuncia incorporou também o trabalho do professor e poeta Nelson Maca, do Coletivo Blackitude, de Salvador (BA), que organizou a compilação de letras. GOG lembra também que tentou fugir de um livro com caráter biográfico ou de uma obra que desse sua própria versão do desenvolvimento da cultura hip-hop, apesar de não descartar uma produção nesses moldes no futuro. “O que aconteceu é que, percebendo a força e a responsabilidade das minhas composições, diante do título popular de ´poeta do rap brasileiro`, muitos educadores me procuram e pedem autorização para usar as letras em palestras, saraus e trabalhos em sala de aula”, explica o rapper.




Um exemplo disso é a música “Periferia segue sangrando” , bastante usada em meios acadêmicos e educacionais, na qual o poeta discorre sobre os temas cotidianos das quebradas, fatos que são noticiados na TV, rádio e jornais. O mote diferenciado do livro é que as letras do rapper ganharam um trabalho estético singular, que ficou a cargo de Nelson Maca. “O professor trouxe as letras do formato musical para a poesia, trabalhando o aspecto literário”, frisa GOG.




Questionado sobre a parte da “dificuldade em escrever o livro”, GOG confessa que não passou por esta fase e que tudo foi muito prazeroso trabalhar no projeto. “Talvez o Maca tenha tido essa dificuldade, pois teve que montar toda a estratégia”, destaca. O professor Maca discorda, de forma positiva, da afirmação de GOG, e lembra: “Foi um processo tranquilo, pois eu já tinha um contato direto com toda a obra e ouvia as músicas antes mesmo de conhecer o GOG pessoalmente. Pegamos todos os discos da carreira e fizemos a seleção das letras, transformando-as em poesia”.




Maca explica que o texto falado tem uma dinâmica diferente do que está escrito e que, muitas vezes, no papel, por não ter a base para ser recitado, pode perder o vigor. “O que fiz foi recuperar o ritmo da escrita e organizar os versos, vestindo-os de métrica, transformando uma frase longa em duas sentenças curtas, e assim por diante. O maior desafio foi manter a atenção e a canção."




Para este trabalho, o escritor e o rapper se encontraram pessoalmente duas vezes na ponte Brasília–Salvador, e conviveram por três dias em cada uma delas, com GOG cantando todas as letras e Maca analisando uma a uma. “Fizemos um capítulo por disco, com o contexto do nascimento de cada canção, relembrando os parceiros que fizeram parte das criações”, lembra o professor.




O livro é encerrado com uma análise literária de toda a obra, feita por Maca. O livro traz também o prefácio do conceituado jornalista e crítico musical Pedro Alexandre Sanches, e texto de orelha feito pelo poeta e militante Hamilton Borges Walê. “Eu fiquei muito feliz com o resultado porque, quando vi o livro pronto, caiu a ficha: eis minha obra. Eis porque comentam”, afirma GOG.




Segundo Maca, a expectativa sobre o livro é grande - e ele se diz suspeito para falar. “Apesar de toda minha amizade com o GOG, eu acho que é um presente, pois muitos curtem as letras do rapper. Só na Bahia eu conheço cinco professoras que querem o livro, pois já trabalham com os temas em sala de aula, considerando sua profundidade política", pontua o professor. "Então, é um livro para os fãs e também para os educadores. Acredito que vai entrar ainda mais na sala de aula. Arrisco que todos vão gostar."Maca também acredita que este livro feito em parceria com GOG é uma porta para levar a literatura marginal e o rap para as salas de aula. “Isso é perfeito. Muita gente já faz isso, mas não de forma oficial. Muitos professores militantes têm este empenho. Eu mesmo já trabalho com isso há anos na Universidade Católica de Salvador [UCSal] e nos saraus da Blackitude, onde as pessoas declamam textos e trechos de rap nos encontros”, afirma.




Assim, GOG percorre os caminhos da música, do ativismo social e da literatura, com participação frequente em saraus e shows por todo Brasil. O rapper não esconde a emoção : “É uma fase muito diferente. Vejo materializada no papel mais uma forma de levar conhecimento às periferias e reviver momentos importantes. Chegou num momento bacana e me traz mais autoestima e vontade para ver a obra. A periferia vai ficar bastante feliz”, finaliza. Com o livro em mãos, GOG pretende visitar muitos bairros das periferias brasileiras e levar os exemplares de A Rima Denuncia, que saem pela coleção Literatura Periférica, da Global Editora. A capa foi produzida pelo quadrinhista e jornalista Alexandre de Maio.

Novo CDPara o décimo álbum de sua carreira, que pretende lançar em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, GOG pretende musicar o texto “O grande dia”, além de inserir algumas poesias em forma de interlúdio no CD.

Lançamento do livro A Rima Denuncia
Quando: quarta, 25/8, às 19h

Local: FNAC do Park Shopping (SAI/SO, Área 6580 LUC 149 P, Guará, Brasília (DF)

Informações: (61) 2105-2000






Por: Jéssica Balbino







»30/12/2011 18:09 - por: jessicabalbino
Literatura: Quilombo virtual


Resenhas de literatura marginal de volta em 2012










“Leva no sarau, salva essa alma aí”. A frase da música “Subirodoiustiozin”, do Criolo, no álbum Nó na Orelha, é uma clara referência à efervescência cultural que acontece hoje nas periferias de todo país – especialmente em São Paulo – com os saraus que crescem e surgem a cada dia nas quebradas.


Prova disso é que a cada dia surgem novos leitores, escritores e críticos desta nova literatura. Claro que, como tudo, há sempre coisas boas e coisas ruins sendo feitas, mas, num saldo, a cena é positiva e muita coisa boa tem para ser apreciada.


Aliás, a minha pilha de livros e produções vindas das periferias cresce a cada dia. Resenhá-los para 2012 é uma das metas (daquelas que pretendo cumprir).


Produções próprias, editoras que se rendem a literatura dita como marginal, periférica, divergente ou do oprimido. Mostras periféricas, da quebrada, eventos, mesas de discussão e debates e saraus completamente lotados, com gente esperando para entrar, viajando para chegar e sedentas para beber na fonte a literatura real, do dia-a-dia.


Neste texto, informal, de fim de ano, expresso minha satisfação em saber que pessoas como eu estão dispostas a escrever histórias como a minha e mais, que juntos, formamos um movimento, uma voz, um time que cria os próprios caminhos e prova: os brasileiros gostam de ler, sim !


Em 2012, nesta coluna, acompanhem as resenhas de Literatura Marginal, feitas por mim, uma ávida leitora.


Até semana que vem. Muita literatura em nosso quilombo virtual.


Bocada - Forte ::: Reportagem
Produção refinada e atual marca novo trabalho do InquéritoData: 23/11/2010















Com 20 faixas e participações de peso, CD Mudança retoma a poesia do grupo; concorra a quatro CDs autografados nesta quarta-feira (24/11)

Mesmo sem planejar uma data específica, o grupo Inquérito lançou o novo álbum no dia Dia da Consciência Negra (20/11). O conceito de "mudança" sempre esteve ligado ao trabalho do grupo, formando por Renan Inquérito, Pop Black e DJ Rodrigo. Sem ficar preso a uma única forma de fazer música, o CD Mudança passa pelas sonoridades do dirty south, do rap alternativo e do gangsta. O Central Hip-Hop realiza, nesta quarta-feira (24/11), uma promoção para oferecer quatro exemplares autografados do CD (clique aqui para saber mais).

“Nunca buscamos ser diferentes, mas sim sermos nós mesmos. E acabamos nos destacando naturalmente por isso. Temos uma impressão digital dentro do rap e toda vez que o cara ouvir, vai saber que é Inquérito. Sou muito feliz e grato com isso", afirma Renan Inquérito, líder do grupo. "Sempre vamos fazer rap de qualidade e acompanhando a evolução, mas isso sem perder a essência ou ficar pasteurizado.”

Recém chegado às ruas, o álbum Mudança, que traz participações de Cagebê, Emicida, Realidade Cruel, DBS, Dexter e Rapadura, já agrada fãs e adeptos da cultura hip-hop. O poeta Sérgio Vaz, da Cooperifa - que em 2008 participou do segundo álbum do grupo, Um Segundo é Pouco (na faixa “Já disse o poeta”), fala: "O Inquérito é um dos grupos que admiro muito. A sua poesia é coerente com suas ações. Por isso, a música é verdadeira”. Quem também não poupa elogios é o rapper GOG. “O grupo Inquérito me conquistou pela firmeza dos seus passos e pela objetividade na caminhada. É original”, pontua. Há quem já considere o disco como o melhor do período. "Pela força e caráter de todos os envolvidos no processo do novo CD do Inquérito, já sai como um dos melhores CDs de 2010/11", frisa o rapper Japão, do Viela 17.

O produtor Marcelo Guerche, conhecido na cena como DJ Morgado, acredita que cada região do Brasil deve se identificar com uma música entre as 20 faixas que compõem o álbum, o que, para ele, pode garantir o sucesso do trabalho. “Um dos pontos principais do Inquérito é trazer um conteúdo inteligente. Quem ouve não é apenas levado a uma identificação. O CD é um convite à reflexão”, acredita.

Transformação, poesia e projetos

"Nossa mudança acontece na evolução da caneta mesmo, de conseguir elaborar, de pensar. Antes, eu achava que o rap, para ser diferente, tinha que ser complicado. E hoje eu acho que não: acho que tem que ser simples. Mas não quer dizer que o simples é ruim”, define Renan, para explicar sua maneira de fazer poesia.

E por falar em poesia, o CD vem recheado de lirismo. Num interlúdio que sucede a faixa gravada com o MC Rapadura, o grupo brinca com as palavras e marcas comuns no Brasil, numa crítica à falsa liberdade de escolha que o povo tem.

Esse vínculo entre a literatura, a poesia e a música é, também, um dos fatores que destacam o grupo no cenário brasileiro. Entre os planos futuros, que incluem o lançamento do videoclipe da música “Um brinde”, a gravação de outros dois videoclipes e vários shows por todo o país. Renan também pretende lançar um livro com as letras do grupo e mais alguns poemas que já tem escritos. “Nós acreditamos que o rap é ritmo, arte ou amor e poesia. E tem que ter poesia, mas não podemos esquecer que não é uma declamação, é uma música que deve ter ritmo, suingue, interpretação, flow, levada e métrica. Trabalhamos dentro disso e as pessoas sempre podem esperar isso nas letras do Inquérito”, afirma o MC.

Por: Jéssica Balbino


Bocada - Forte ::: Reportagem
Sarau da Cooperifa comemora nove anosData: 27/10/2010
























Rumo à primeira década de existência, sarau do nono aniversário é marcada por prêmios em reconhecimento à iniciativa do poeta Sérgio Vaz

Noite de quinta-feira, 20 de outubro de 2010, no bairro Chácara de Santana, no extremo sul de São Paulo. Em uníssono, centenas de vozes bradam: “É pique, é pique! É pique, é pique, é pique! É hora, é hora! É hora, é hora, é hora! Rá-tim bum! Cooperifa! Cooperifa! Cooperifa!” E assim as velinhas de nove anos são sopradas no bolo dedicado ao Sarau da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia), no já famoso Bar do Zé Batidão.

O calor humano de mais de 400 pessoas ajuda a aquecer o ambiente, mas mesmo os que não conseguiram se acomodar do lado de dentro do recinto não se importam com o frio. Pelo microfone, mais de 70 poetas destilam vida em forma de versos, intercalados por brados de “Povo lindo, povo inteligente” e “Uh, Cooperifa! Uh, Cooperifa!”.

Emocionado, o criador do sarau, Sérgio Vaz, que viveu boa parte de sua vida atrás do mesmo balcão de onde hoje são servidos os petiscos para rechear as poesias, diz que gostaria de ter um “alegrômetro” para medir a magia da noite especial - que teve seu horário estendido e ainda deixou muitos poetas com a língua coçando de vontade de declamar.
“Queria ter dois corações: um para amar e o outro, também.” A famosa frase, contida numa das poesias de Sérgio Vaz, é declamada pelo rapper e poeta Crônica Mendes e citada também por seu autor, logo em seguida. “Essa noite nunca existiu. Foi um sonho que a gente teve”, enfatiza Sérgio Vaz, que se auto intitula o "vira-lata" da literatura - só que, agora, nove anos mais velho. Para o músico Wesley Nóog, frequentador do sarau, é um prazer muito grande ver o Sarau da Cooperifa completar nove anos. “É muito mágico ver a Cooperifa assim”, emociona-se. O sentimento foi compartilhado pelo taxista, rapper e escritor Jairo Periafricania, que afirmou que sua vida mudou com o sarau. “Eu passei a escrever mais” , enfatiza. Cinegrafista e oficineiro do Sesc, CarlosCarlos também elogia a iniciativa, batizada, muitas vezes, de "Quilombo" pelos participantes. “Quando o poeta declama, as pessoas falam baixinho, acompanhando o poema quando já o conhecem, e parece que estão rezando. No fundo, é como se o sarau fosse uma religião”, pontua.

Para provar que a poesia não tem idade, crianças circulam pelo Sarau da Cooperifa. As mais ousadas tomam o microfone e declamam suas próprias poesias. ´Musa da Cooperifa`, Rose faz sua declamação com a filha por perto, enquanto enxuga as lágrimas que teimam em cair. Além dela, taxistas, diaristas, músicos, jornalistas, aposentados e moradores das redondezas dividem espaço com quem viajou por horas para estar ali.

Para Sérgio Vaz, este é o "milagre da poesia" . A definição dele remonta a um relato sobre Moisés dos Santos de Jesus, conhecido como Vato. Sem ônibus para voltar para casa depois de um sarau, ele foi embora caminhando, por mais de 15 quilômetros, depois da 1h30 da madrugada, com os termômetros marcando 15º C. Na mochila, a "lenha" que aqueceu sua alma: livros, filmes e CDs ganhados, comprados ou “traficados” com amigos, que, na base do escambo, compartilham materiais culturais.

Para encerrar a noite com a mesma magia poética, Fernando Anitelli, vocalista do grupo O Teatro Mágico, também empunha o microfone e precede a intervenção do grupo Umoja, que faz uma apresentação de maracatu logo após o sopro das velinhas - e a oficialização de que, a partir daquele momento, o Sarau da Cooperifa iniciava seu primeiro passo rumo à primeira década de existência. Como parte da comemoração, também houve o lançamento do livro Traficando Conhecimento, de Jéssica Balbino, completando a marca de 50 livros lançados no espaço do Bar do Zé Batidão. “À Cooperifa, todo o sangue do meu corpo. Somos tantos e tantas, não posso aceitar nada sozinho. É tudo nosso!” , finaliza o poeta Sérgio Vaz.

Prêmios
Após ter sido escolhido pela revista Época como um dos brasileiros mais influentes de 2009, Sérgio Vaz recebe nesta quarta-feira (27/10), junto com outras 11 personalidades, o Prêmio Transformadores 2010, concedido pela revista Trip. A premiação existe há quatro anos e homenageia personalidades cujos trabalhos e ações buscam o bem coletivo. “A vida é mesmo cheia de ironias, eu poeta analfabeto, ganhando prêmios por incentivar pessoas à literatura. É cada uma...” , brincou o poeta e fundador do Sarau da Cooperifa, sobre a premiação, no microblog Twitter.

“Os 12 agentes de transformação foram escolhidos por personificarem os temas que consideramos essenciais e que orientam os princípios da revista”, revela o conselho editorial da Trip, sobre os vencedores do Prêmio Transformadores 2010. Daqui a mais um mês, no dia 27 de novembro, Sérgio Vaz já tem outro reconhecimento agendado: vai ao Vidigal, no Rio de Janeiro, para receber o Prêmio Orilaxé Empreendedor, concedido pelo grupo cultural Afroreggae. “É só progresso. Não posso fazer nada”, resume o poeta, sobre as conquistas e a longevidade do trabalho por ele iniciado.

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Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Reportagem
Leopac - O chicote vai estralar com a rima sul-mineiraData: 09/08/2010


















Leopac se prepara para o lançamento de single que precede o primeiro EP com o rap do sul de Minas Gerais

Prepare-se: o chicote vai estralar! Uma rima ágil é o que resume o rap feito pelo mineiro Leopac. Com letras politizadas e modernas, o jovem criado em Poços de Caldas, na região sul do Estado, cresceu ouvindo música negra e, através do funk original, ainda nos anos de 1980, sentiu vontade de ingressar na cultura hip-hop. Por ter um pai DJ de bailes black tradicionais na cidade, e por ter crescido ouvindo música negra, Leopac teve o primeiro contato com o rap de uma maneira bastante comum, no interior do Estado, através das fitas cassete, tão comuns ainda na década de 1990.

Hoje, ele se prepara para o lançamento do single Chicote Estrala, que precede o primeiro EP, gravado sozinho, após quase sete anos na estrada do rap. A versão oficial traz na letra e no beat a força da superação de obstáculos. “É uma mensagem para encarar os desafios quando está tudo difícil, mas é também um recado leve às pessoas que me invejam”, define. As comparações do público, que se incendeia durante os shows, vão de Slim Rimografia a Emicida e Rashid, mas ele manda o salve e revela que tem mais em mente.

O primeiro EP do rapper vem com nove faixas e, de acordo com ele, é uma resposta à cobrança dos “manos” do sul de Minas. As letras falam sobre as vivências do jovem de 22 anos. “Dentro das nove faixas, duas produções ficaram por conta de DJ Duh, de Campinas (SP), que é um monstrão dos beats, e o restante são produções minhas, além de participações especiais como DJ Mancha, André Tom Black e Jéssica Balbino”, anuncia. Entre as produções caseiras que faz com o selo próprio, batizado como No Tom Produções, Leopac, cujo nome denota a semelhança com o cantor norte-americano Tupac Shakur, se dedica também a um trabalho com beat sampleado ao lado de DJ Mancha, que o acompanha em todos shows e trabalhos. “Esse lance é meio mágico para mim, porque o sample, quando bem trabalhado, fica maneiro”, conta. Com sons dos anos 1970, 1980 e 1990, ele mescla as batidas do rap.“Eu me imagino criando um quadro para ser leiloado, valendo milhões, saca? Eu amo soul, jazz e funk, e tem muita coisa para ser sampleada e virar uma boa música”, frisa. De maneira excêntrica, ele se apodera do microfone e não deixa a desejar no que diz respeito a representar o elemento MC (mestre de cerimônias). Desde 2003, levanta plateias de shows, que já teve a oportunidade de abrir e participar, como Facção Central, CXA, DBS e a Quadrilha, ManoReco e Função RHK.

Não diferente de grande parte de quem deseja viver de rap, ele destaca a questão financeira como o maior obstáculo para gravar e lançar um disco. A sorte apareceu quando o dono do estúdio em que está gravando resolveu apostar no som e, como ele mesmo brinca, parafraseando Helião (RZO): “O bagulho tá osso”. A oportunidade representa um marco na carreira marcada por muitas lutas, indas e vindas. Desde o início da década, quando cantava no grupo Real Face do Gueto, liderado por G do Gueto, Leopac busca uma chance de mostrar o próprio trabalho. Com o EP nas mãos, o rapper aguarda o fechamento de shows em toda a região. “Não custa sonhar, né? Pretendo lançar neste ano, sem delongas”, informa.

A primeira experiência com videoclipes também tem data marcada, e o lançamento do EP deve ser marcado ainda pelo audiovisual. Para não ficar de fora da cena nacional, Leopac iniciou, neste ano, o hábito de manter um blog próprio, e tem se arriscado a produzir alguns textos sobre a cultura - tendo, inclusive, publicado um deles no blog Literatura Periférica, do escritor e cineasta Alessandro Buzo. A originalidade fica por conta do contrato com a grife de periferia Interiô, que o veste. Ele exibe no peito, orgulhoso, o mapa do Estado onde vive a expressão que o caracteriza. E o investimento no quinto elemento da cultura Hip-Hop não para por aí. Com oficinas, workshops e idealização para a realização de saraus, ele anuncia que não vai parar e quer se dedicar a espalhar o hip-hop de outras maneiras, não apenas pelo rap. Questionado sobre qual escola do rap o define, Leopac fica indeciso, mas revela que se considera da Nova Escola, afinal, só é ouvido agora. “E ainda tem a pegada da música”, diz. Musicalmente, ele se define como um artista que busca se completar. “Quero herdar tudo que eu puder da música que amo”, finaliza.

Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Reportagem
Rap com amor: lançamentos marcam o Dia dos NamoradosData: 09/06/2011


















Músicas e videoclipes são lançados no Dia dos Namorados e revelam artistas preocupados em falar de amor
As dificuldades são todas, os prazeres são todos. É assim que Lívia Cruz, 25 anos, resume a carreira de mãe, mulher e MC. Às vésperas do lançamento do primeiro videoclipe: "#VemPraPertodeMim", ela desdobra-se entre a carreira de cantora de rap, cuidar da filha de cinco anos e a vida de casada com o MCMax B.O. Nessa maratona, ambos enfrentaram 13 horas de filmagem no estúdio Cine Video, para dar forma ao material audiovisual, que ganha as ruas no próximo domingo, dia 12 de junho, quando comemora-se o Dia dos Namorados.




Questionada sobre a escolha da data para o lançamento, Lívia conta que as coisas se deram naturalmente. Com direção de Rabu Gonzales e produção executiva de Henrique Brandão e Max B.O., o cronograma de lançamento surgiu por coincidência. “Foi perfeito, porque é uma música que fala de amor, de se encontrar, foi feita por um casal apaixonado e deve falar diretamente para os apaixonados, acompanhados ou não”, define a MC. E a parte do casal apaixonado é definida por ela mais adiante, quando conta que a composição da letra foi feita pelos dois. “Fizemos juntos, não foi pensado. Aconteceu. Depois, a música foi escolhida para virar clipe. Não foi premeditado”.




Com isso, o casal pretende aquecer a temperatura na capital paulista no próximo domingo, que será marcado por lançamentos que falam de amor. Durante a festa, que acontece no UP Club em São Paulo, o casal convida ao palco o amigo Rael da Rima, que confessa estar feliz com a participação no show. “Estarei lá para somar nesse dia de confraternização da música. E lançá-la durante o Dia dos Namorados é uma questão bastante propícia para os casais que curtem uma boa música. Eles podem prestigiar e aproveitar o domingo. Já para quem não tem uma pessoa para dividir esse momento, é uma ótima ocasião para arrumar um parceiro ou parceira”, considera.




E falar de amor no rap, para Lívia, é algo que não precisa ficar preso aos clichês. “O rap feito com sentimento, inevitavelmente vai falar de amor. A única diferença será a forma como ele vai aparecer. A forma como o poeta vai expressar e o público interpretar. E eu sou uma mulher romântica”, confessa.






Por: Jéssica Balbino






Bocada - Forte ::: Lançamento
Shekinah Rap - "Rimas de Sangue"Data: 29/11/2010















Suor, renúncia e sonhos marcam o novo disco do grupo de rap gospel de Votuporanga (SP)

Inspirado no sangue que escorre pelas ruas, originado da violência urbana, o grupo Shekinah Rap lança Rimas de Sangue, seu segundo trabalho. Com 17 faixas, o novo álbum foi feito de forma independente, no estúdio RimaCruz - localizado em Votuporanga, no interior de São Paulo -, projeto criado pelos próprios integrantes do grupo depois de um ano de trabalho e alguns problemas enfrentados junto a uma gravadora da capital. Formado pelo arte-educador Marcelo Biorki, 30 anos, e pelo produtor musical Marcelo Guerche, 28 anos, conhecido como DJ Morgado, o grupo é denominado gospel, mas circula em ambientes de rap "secular". “O que queremos passar é uma reflexão sobre ambos os universos que falam: a rua e a cruz”, define Biorki.

Após ter ganhado público em diferentes Estados brasileiros com a boa repercussão da faixa “O choro de uma mãe” (do primeiro álbum, Mais que Poesia, de 2006), o grupo aposta na mesma fórmula. Das quatro faixas já liberadas para o público, “Aos nove anos” tem se destacado, assim como “Pro Rio”, que já ganhou um videoclipe, filmado por Vras77. “Ainda tem muita coisa para rolar, mas, particularmente, sei que a música ´A mãe, o filho e as grades`, com participação da Bruna Dias, que também canta em ´O choro de uma mãe`, é uma forte candidata a virar no coração da galera”, aposta DJ Morgado.

Ao comentar as dificuldades comuns enfrentadas por boa parte dos grupos de rap do Brasil, como a falta de recursos e de tempo, DJ Morgado lembra que a seriedade e o compromisso ideológico serviram de estímulo para o Shekinah Rap superar tais obstáculos. “Estávamos bem definidos quanto à mensagem que tinha de ser transmitida”, diz. Biorki faz questão de frisar que o papel social do rap, em sua concepção, vai muito além de apenas cantar. “Acredito que a revolução não se faz só com música. Revolução se faz com suor, renúncia e sonhos”, afirma.

Para somar neste projeto, o grupo traz também participações de outros grupos e artistas, como Renan Inquérito, Pop Black, Fex Bandollero, DJ Jamaika, Lito Atalaia e alguns parceiros da região onde vivem, como Missão Resgate (RimaCruz), Pastor Carlos Fraga, Bruna Dias (que participou também do primeiro disco), Anderson Tutti e Thiago, do quarteto Spirituals. Segundo Biorki, “só pessoas especiais participaram do disco”. DJ Morgado emenda: "Falar disso é muito bom. São pessoas que conhecemos na caminhada, que pudemos olhar nos olhos, vivenciar algo juntos e, acima de tudo, pessoas que sempre respeitamos e curtimos”.

Um dos participantes do disco, referência no rap gospel, o rapper Fex Bandollero comenta sobre o novo trabalho do Shekinah Rap. “Eu participo da faixa ´Quero Sonhar` e, quando fui gravar no meu estúdio, o Lito Atalaia foi colocar voz na música ´Start` e acabei fazendo o refrão dela, também. Então, participo de dois sons. Para mim, o Biorki é um dos melhores MCs da cena e o Morgado, sem dúvida, uma das revelações na produção de rap brasileiro. Fazem o trabalho com excelência. Tenho muito amor, respeito e admiração por eles”, dispara Fex.

Sobre o processo de produção do álbum, DJ Morgado conta alguns detalhes: “Usei samples preciosos, mas não deixei de abusar do eletrônico. Nossas influências variam de old school a underground, passando pelo gangsta, latino, nacional, rap core e nu metal". No momento, o Shekinah Rap se concentra na produção do videoclipe da música “É por você”, que tem participação de Renan Inquérito e deverá ser gravado ainda neste final de ano - também com direção de Vras77.

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Por: Jéssica Balbino

Bocada - Forte ::: Reportagem
MinC anuncia investimentos no hip-hop durante 2º Hip-Hop MulherData: 03/08/2010












"A arte civiliza e humaniza." São com estas palavras que Ricardo de Lima, secretário da Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura abriu o segundo dia do Hip-Hop Mulher, no dia 31 de julho, na Ação Educativa, no centro de São Paulo. O evento, que foi realizado pela segunda vez, reuniu cerca de 60 mulheres de vários Estados brasileiros e até mesmo do exterior.

Arquiteto e artista plástico, o secretário abriu o encontro trazendo uma grande notícia: o governo prepara investimentos na área do hip-hop e cultura de rua, que hoje engloba os elementos de dança, música, discotecagem, graffiti e conhecimento. "Para nós, há um interesse muito grande em investir neste setor, pois são milhares de jovens que participam e, se queremos um futuro melhor, é importante investir nisso", disse o secretário.

Para Lima, o encontro de mulheres, que teve oficinas práticas, discussões e debates acerca da violência e do tráfico de mulheres, é um avanço significativo não apenas para a cultura hip-hop, mas também para a arte no Brasil. "É um movimento que trata com o imaginário, com a humanidade, e deixa as pessoas mais esclarecidas. Interessa para o atual governo investir cada vez mais nisso, entendendo como é, fomentando, ajudando na circulação e montagem da memória", colocou.

Neste ano, foi lançado pelo MinC (Ministério da Cultura) o Prêmio Cultura Hip-Hop Preto Ghóez, que vai premiar 135 iniciativas culturais em todo o país, totalizando a distribuição de mais de R$ 1,75 milhão. Além desse prêmio, estão sendo montadas políticas de Estado para o setor da cultura de rua. "Já tivemos algumas reuniões e vamos encontrar um ponto em que é mais importante e urgente investir, entre memória, patrimônio e fomento à realização. Temos a proposta de construir centros culturais voltados a esta área e levar ainda o hip-hop para o ambiente acadêmico e educacional, sem perder as características desse movimento artístico", pontuou. O próprio secretário reconheceu que o Estado nunca olhou para o hip-hop e que este sempre se desenvolveu dentro da periferia. "Ele se criou com leis e ordem próprias, que nascem na contramão da questão do Estado, e isso é muito interessante, porque a sociedade democrática vive disso", afirmou.

Discussão: tráfico e agressão de mulheres

Entre os muitos pontos importantes do encontro, vale destacar o debate da parte Ativando a Mente, sobre o tráfico de mulheres no país. Dados levantados por instituições ligadas ao grupo Ação Feminina de Hip-Hop, do Vale da Paraíba, mostram que, a cada 15 segundos, uma mulher é vítima de violência no país. Em cima disso, uma das poetisas da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia) leu um poema sobre o cotidiano e as mulheres espancadas no território nacional, emocionando as mulheres presentes ao encontro.

A representante da organização do Vale do Paraíba, Patrícia Calassi, contou que foram mapeadas 131 rotas de tráfico nas estradas brasileiras. Esse tráfico movimenta aproximadamente US$ 32 bilhões, vitimando algo em torno de 75 mil mulheres ao ano. "A situação está caótica e, deste encontro, podemos passar a cobrar mais do poder público, aplicando em cada Estado", afirmou.

Aos 30 anos, a rapper Amanda Negrasim é um exemplo para ilustrar a discussão sobre violência. Em um depoimento emocionante, ela relatou que foi vítima de agressão doméstica quando foi proibida pelo companheiro de cantar rap. Desde então, sofre de dores no braço e não tem nenhuma proteção amparada pela lei Maria da Penha, muito discutida e pouco colocada em prática. Durante o relato, ela cobrou ações das autoridades em relação à aplicação da lei e desafabou: "Se não fosse o hip-hop e os encontros com as mulheres da cultura, eu não estaria aqui. Toda vez que penso em fazer alguma besteira, lembro que tenho o hip-hop. Na prática, o encontro muda muita coisa e, a partir de agora, eu canto e vivo a minha verdade", finalizou.
Por: Jéssica Balbino


Dia do MC: conheça como surgiu e foi parar nos TTs do Brasil






Saiba como foi criado o “Dia do MC” no Brasil e como este elemento da cultura hip-hop está sendo homenageado






por Jéssica Balbino






#FelizdiadoMC. Esta foi a hashtag presente ontem, durante quase todo o dia, nos topic trending (TTs) do twitter.

Falar sobre o poder das redes sociais e da ocupação de agentes do hip-hop nestas mídias seria redundância, mas a prova de que isso acontece é que, por meio de um chat no facebook surgiu a ideia e foi criada a tag, logo pela manhã. Em pouco mais de uma hora ela já figurava entre os assuntos mais comentados do Brasil.


O autor da data é o MC e apresentador do programa Manos & Minas, Max B.O., 32 anos, mas ele confessa que não planejou. Aconteceu e eis aqui. Dia 17 de janeiro fica marcado no calendário do hip-hop como o Dia do MC. Ou #DiadoMC, como preferir.


Em entrevista, exclusiva ao Portal Rap Nacional, Max B.O., conta como se deu a ação e como tudo aconteceu.









Max B.O. foi o autor da tag #FelizDiadoMC



Portal Rap Nacional: Como surgiu a ideia de fazer um Dia do MC?


Max B.O. : Não teve um plano ou algo tipo, ontem estava no estúdio com Fábio Sul, DJ Babão e DJ Jeff Bass e depois do ensaio, ouvimos muito Bezerra da Silva, pequenos trechos, mas muitas, muitas musicas. Cheguei em casa, fiz umas coisas e fui pras redes sociais. Uma seguidora me mandou a tag #7AnosSemBezerradaSilva. Pesquisei, dei Rt, comentei e tudo mais, sem me ligar que já passava da meia noite quando isso aconteceu. Aí fiquei pensando que dia 17 fosse dia 16. Hoje, acordei e botei na internet, #FelizdiadoMC ! E comecei a desejar pros amigos, colegas, conhecidos, todos que estão nessa luta. Mas fiquei pensando: Poxa, podia ter sido ontem, que seria uma homenagem pro Bezerra também! Foi quando a Jéssica Balbino começou a investigar as “Origens do #DiadoMC”, e falei pra ela qual era a onda. Aí ela disse: Poxa! Hoje é dia 17, fazem 7 anos que o Bezerra morreu. Só aí me liguei que então tava tudo certo, no dia certo, e a homenagem pro “Partideiro MC”, “O Mestre dos Mestres”, também ia rolar. A Lívia Cruz já estava me ajudando na campanha e a Jéssica veio somar mais. O bom da rede social é que vai de um usuário pra outro, que seleciona o twit, edita, tira uns nomes, põe outros e manda de novo. Isso aumenta a abrangência e fortalece a correria de todo mundo, por que cada fã dedica o #FelizdiadoMC pro MC que gosta.



P.R.N.: Você brincou que até a verdura alface tem um dia. Por que não um dia para o MC?



Max B.O.: Pois é! Tem dia disso, dia daquilo e tem o dia do hip-hop, dia do DJ, dia do dia. Pouca gente hoje em dia sabe que no começo da canção versada, bailes jamaicanos, no verdadeiro início do “falar junto com a música”, o DJ quem mandava uma idéia no microfone e selecionava os discos, depois com a chegada do Selectah – provavelmente o primeiro emcee – o Dj ficou apenas com as mixagens dos vinis e o Selectah que separava os Lps e animava a platéia.



P.R.N. Tem algo a ver com a data de aniversário de morte do Bezerra da Silva? Por que?


Max B.O.: Não. Só uma coincidência que acabou se tornando uma homenagem. Não sou muito chegado a “aniversários de morte”.



P.R.N.:Já existe, oficialmente, um dia para o hip-hop, que é 12 de novembro. Existe também o dia do Dj. Faltava um dia para o MC. Você acha que os demais elementos podem se mobilizar para a criação de datas semelhantes?


Max B.O.: Acho que sim, se tem uma data pro break e fazer uma curtição, uma comemoração de B. Boys. Quando foi inaugurada a primeira galeria de grafite a céu aberto, que curiosamente é aqui embaixo do metrô da Zona Norte? Esse dia não poderia ser o dia do graffiti, ao menos aqui no Brasil? O #DiadoMC não tava ligado a nenhum feito, mas num é o #DiadoRap é #DiadoMC, dedicado aos Mestres de Cerimônias, ao cara que resolve com a platéia no microfone na base da elegância, respeito e arte. Espero que nos próximos 17 de janeiro tenhamos eventos com MC’s, mistura musical, prestação de serviços.



P.R.N. A tag #FelizDiadoMC foi para os TTs. Isso mostra a força que há no rap brasileiro. O que você pensa sobre?


Max B.O.: Gostei muito, foi uma marca que ainda não atingi com meu nome. Mas recentemente fortalecemos os TT’s com o #SALVEOMANOSEMINAS e hoje a prova que uma ação inédita bem feita e anônima também pode dar bons resultados. Fora esses eventos “inéditos”, é natural hoje em dia o Rap estar nos TT’s com muitos dos nossos artistas, Emicida, Projota, Inquérito e muito mais gente. Hoje inclusive o #ProjotanoComando tag para o programa de TV onde ele estava comentou o #DiadoMC.



P.R.N. No entanto, com a tag nos TTs, muita gente criticou e tentou rebaixar os MCs. Você, como um profissional da área, como encara?


Max B.O.: Acho que quem critica não conhece a função, nem sabe o que na verdade é um MC. Tem o Mestre de Cerimônias do Rap, do Funk, do Samba, no Drum n Bass, nas rádios, nos estádios em jogos de futebol. Ano passado eu e a Anelis ( Assumpção, parceira no Manos e Minas, na TV Cultura) fomos convidados pra apresentar o Prêmio Tok&Stok, dedicado a estudantes de design. Ela é cantora, não rima de improviso, mas além de cantar bem é uma grande M.C., uma boa condutora. O Bezerra, Aniceto, Genaro, Arlindo Cruz, Zeca e muitos outros, no Samba de Partido Alto são MCs do Samba, e por aí vai. Na tv, o Silvio Santos é um grande MC, o Chacrinha também foi, eu ainda tô tentando. Sou um MC do Rap na Tv, mas ainda não sou um “MC de Tv”. Não é uma coisa de prender as pessoas, mas sim a atenção delas, criar bordões, saídas inteligentes. Acho o Miele é um magnífico.



P.R.N.: Há a ideia de, no próximo ano, fazer um evento comemorativo a data. Como seria isso? algo beneficente?


Max B.O.:Sim, vamos agora nos organizar, pensar na possibilidade desse encontro anual. Se num rolar, vai ficar nos TT’s memo. Hehehe.



P.R.N.:Algo a acrescentar?



Max B.O.: Só quero agradecer a todo mundo que contribuiu com esse relance, nem era uma idéia fazer pra bombar e bombou. Foi um gesto coletivo que provou resultados. Todo mundo lembrou de um artista que gosta e mandou a homenagem. O MC também não é só o cara que improvisa, que isso fique claro. O MC é o cara que sabe conduzir a platéia durante o tempo que tem o microfone na mão. É o piloto da nave!


Muito obrigado a Lívia, que incentivou depois que resolvi tuitar pra todos os chegados que lembrei, a Jéssica Balbino que saiu investigando a origem do papo e aí também apoiou e saiu representando com mais artistas e a todo mundo que aproveitou o momento pra fugir de péssimas notícias e fazer um agrado pro seu artista predileto, que faz arte pra você. P’



“Um por um de um milhão, movimentando a carcaça/ Vou mestrando a cerimônia, balançando a massa. – Se Joga”


O MC ou mestre de cerimônia *


Animação. Ginga. Malícia. Empolgação. Improviso. Energia. Rimas. Poesia. Estas são umas das principais palavras que definem o MC. A sigla é uma abreviação de Mestre de Cerimônias, que no original é Master of Ceremony.


Responsável pela forma verbal do hip hop, cabe ao MC expressar a ideologia da cultura através do microfone. O MC é o rimador, quem cria o freestyle – improviso das batalhas de palavras.



Lívia Cruz foi uma das MCs que apoiaram a tag #FelizDiadoMC





Tido como um dos elementos do hip-hop, o MC surgiu da gritante necessidade de comunicação oral da cultura. Dentro da história do movimento, os primeiros MCs foram também os primeiros DJs de hip-hop existentes, Kool Herc e Afrika Bambaataa, que animavam as primeiras festas no Bronx através do microfone e da oralidade.


“Os MCs estavam lá para agitar o pessoal. Fazíamos com que o público participasse: ‘Mulheres, gritem :Ho’. O MC se envolvia diretamente com o público”, afirma Kevin Kev, MC do grupoFantastic Freaks, no documentário Scratch do canal GNT.



Extraído do livro “Hip-Hop – A Cultura Marginal” (Independente, 2006)






Opiniões


A criação da data, no entanto, mescla opiniões de usuários do twitter, facebook e que tomaram conhecimento da data pela internet.


O rapper Renan, integrante do grupo que mescla samba e rap, o Função Original, acredita que todo mestre merece respeito por ser considerado um. “Ser um mestre de cerimônia não é fácil. Não é para qualquer um ditar um acontecimento, seja uma história ou um fato momentâneo. Então, concordo que seja muito importante a criação do Dia do MC, pois é um estímulo a mais”, coloca.


Já o comunicador João Paulo, conhecido como Kiko, afirma que desconhecia a data. “Eu acho uma boa, teria que ser feriado”, brinca. “O MC é uma peça mais que fundamental no hip-hop. Acho digno ser lembrado, mas teria que ter também o dia do graffiteiro, do produtor, etc”, pontua.

A MC, Amanda Negrassim acredita todos os dias são dias dos MCs. “Porque todos nós temos algo a falar. Estou muito feliz em saber que as palavras de um poeta sempre estarão vivas”, diz.









Renan, MC do grupo Função Original, apoia a criação da data






O auxiliar de vídeo, que trabalha diretamente com hip-hop, Marcos da Lua, também expressa a opinião sobre a criação da data. “É um dia legal d ser lembrado, apesar de que eu não sabia que era comemorado hoje. Mas, é algo para fortalecer a cultura hip-hop. Tudo é válido”, acredita.


Nesta sequência, o rapper e repórter – que se autodenomina rappórter – Petter MC, da cidade de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, criou um web vídeo em seu blog “Diário de um MC” para falar sobre a data. Com pouco mais de um minuto e meio, o MC parabeniza os colegas de profissão pela data.



Assista ao vídeo de Petter MC: #FelizDiadoMC








Hashtag, jogo da velha, nanotecnologia e uma nova forma de comunicação





O uso da hashtag, ou jogo da velha, serve para marcar um determinado assunto na rede social do passarinho azul. O hip-hop tem se apropriado bastante da técnica para marcar assuntos, músicas e já virou até mesmo nome de livro.


O link do twitter com a rede social que hoje lidera em número de usuários - o facebook – permite ainda maior repercussão e destaque dos temas.


O rapper Projota é um dos que mais aparecem nas hashtags e também nos TTs. O episódio mais marcante, e que virou notícia nacional, foi quando os fãs do rapper acusaram o cantor sertanejo Luan Santana plagiar versos de uma canção. A tag #LuanSantosPlagiouoProjota foi parar nos TTs nacionais e despertou atenção de toda mídia.




Rede social Twitter tem sido uma das grandes responsáveis pela difusão de ideias dentro do hip-hop










Para não ficar atrás, hoje mesmo, ao lançar o single #CadaumComseusProblemas, o rapper Projota, que já fez até twitcam para celebrar os 100 mil seguidores, atingiu novamente o topo do twitter e ficou algum tempo entre os assuntos mais comentados da rede.


Um outro caso bastante conhecido, e com resultado palpável foi a tag #SalveoManoseMinas, quando a direção da TV Cultura eliminou o programa da grade e após várias manifestações via twitter, o fortalecimento da tag nos TTs e vídeos gravados por rappers, bastante conhecidos e anônimos trouxe a revisão por parte da direção e o programa foi reinserido na programação a TV Cultura, ficando, inclusive, sob o comando de Max B.O., ao lado de Anelis Assumpção.


Outros exemplos a serem citados são o rapper Emicida, que quando foi entrevistado no talk show do Jô Soares também virou notícia na rede social.









Projota, um MC que já esteve várias vezes nos TTs






Aproveitando-se da popularidade das redes sociais e da nanotecnologia, o rapper Renan Inquérito também fez uso da hashtag em seu primeiro livro de poesias, #PoucasPalavras, onde assina como @RENAN_INQUERITO, o nickname do twitter.


Lívia Cruz, que lançou em 2011 um videoclipe com Max BO, também fez uso da tag #VemPraPertodeMim para divulgar o single e o material audiovisual e a prática é cada vez mais comum. MCs, Djs, graffiteiros, produtores, dançarinos e comunicadores do hip-hop fazem cada vez mais uso do artifício e não é raro ver notícias acompanhas de caracteres como @ e # em sites especializados.


Prática que até poucos anos seria considerada, no mínimo, estranha. O jornalista e twitteiro André Maleronka acredita que a aparição constante dos caracteres seja algo natural. “Faz parte da nossa comunicação atual. Eu, por exemplo, só fui prestar atenção e ligar pro twitter quando morreu o Michael Jackson. Aí fiz minha conta porque saquei que era um local de rápido fluxo de informações e funciona muito bem para mim. É mais um recurso e pode ser bem usado”.





Livro #PoucasPalavras de @RENAN_INQUERITO que faz uso da comunicação originária no Twitter






E o uso das tags permanece, entrando, inclusive, em ações sociais, como a que acontece no próximo domingo na favela do Moinho, em São Paulo. No flyer oficial, o evento aparece como “FestivalMoinhoVivo e o uso do twitter tem sido fundamental para captar voluntários para a ação.


Sendo assim, resta esperar para que, com ou sem tag, com ou sem difusão do twitter, mídias sociais ou internet, os MCs continuem empunhando os microfones e contando a história do nosso povo por meio do rap.





Festival #VaiSuldeMinas valoriza rap em Poços de Caldas






Shows de Leopac e Slim Rimografia & Thiago Beats agitam festival #VSM






fotos: Jéssica Balbino


Desde quinta-feira (24), Poços de Caldas tem sediado o evento#VaiSuldeMinas com a organização do Coletivo Corrente Cultural e apoio do Fora do Eixo, com várias ações voltadas ao hip-hop.


A primeira delas aconteceu na noite de quinta mesmo, com o desfile de moda urbana e hip-hop, Alternativa B, que apresentou quatro grifes da própria cidade.


No sábado, shows como Leopac e Slim Rimografia e Thiago Beats fizeram a diferença durante as apresentações musicais do festival.






E o Chicote Estralou


Nas pick-ups, Dj Mancha abriu o show numa breve sequencia, que chamou Leopac a rimar e mandar a ideia permeada de ritmo e poesia.









Numa sintonia ímpar, a sequencia chegou com um sampler do finado Sabotage, lembrando que “Rap é Compromisso” , sem esquecer que o Coletivo Corrente Cultural possibilitou a realização da cultura autoral na cidade com o festival.


O ponto alto do show chegou com o single mais conhecido do MC “Chicote Estrala”. Lançado em 2010, brinca com o samba-rock e traz um sampler de Jorge Ben Jor.


E sem deixar a desejar, o autêntico “rap de história” fez parte da apresentação do jovem MC, com direito a refrão melódico e boa batida.













Provando que a cultura hip-hop é a junção de elementos, Leopac trouxe ao palco oLP, da cidade vizinha – Congonhal – que encantou o público com o beatbox, improvisando com a boca sons como a caixa, o bumbo e até mesmo o famoso “poperô” das baladas.


As participações especiais não pararam por aí. De Campinas – SP, o MC e educador Donx Xand entoou o single “Há Crédito em Você” com Leopac, deixando sempre a mensagem positiva do Rap, emocionando, inclusive, o próprio rapper.

















O encerramento do show ficou com a canção #JáVô, lançada recentemente pelo rapper e que virou, inclusive um vídeo rua, no qual ele fala sobre as duas coisas que o movem – o amor pela namorada e o rap – .


Quem sabe faz, quem não sabe sai de fina









O carisma do público é conquistado na primeira música, após uma declamação à capella feita por Slim, deixando claro que transita e dialoga muito bem com a literatura contemporânea, até pela poesia frequente em suas rimas e letras.


Rap, diversão e resgate da história da cultura hip-hop. No palco, aquilo que se espera de um show. Dois artistas entrosados que, encantam a todos presentes, desde crianças até idosos.


Brincadeiras e improvisações, compostas de um jogo teatral que deixa clara a amizade entre os músicos entretém quem assiste a apresentação, não apenas musical, mas divertida, única e impressionante.









Sim, os versos impressionam. As canções emocionam. Uma homenagem ao lendário músico Pepeu, precursor do hip-hop no Brasil é feita. “A importância de lembrar as raízes”.


Uma MPC e muito dinamismo marcam a presença de Thiago Beats, que, faz um show à parte do espetáculo com o beat box e as brincadeiras.





Grandes sucessos e músicas histórias como “Por você” e “Falido” fizeram o público chegar junto, cantar, gritar, jogar as mãos pro ar e pedir o famoso “bis” ao final da última canção.









O recado fica dado. Quem sabe faz (…)






Serviço - Mais informações sobre o festival podem ser encontradas no site www.correntecultural.com







Vras77: uma nova forma de fazer clipes no RAP
NACIONAL






Um pouco dos trabalhos e da história do diretor Vras77










fotos: Márcio Salata


por Jéssica Balbino






Valmir Puertas Rodrigues, nascido em 1977, é conhecido como Vras77. Morador da zona norte de São Paulo, já viveu no Imirim e atualmente vive no bairro Jardim Eliza Maria.


O início da carreira cinematográfica é marcado pela fase em que foi atleta profissional de patins in-line na modalidade street durante 15 anos. A partir daí, passou a fabricar seus próprios vídeos e em 2002, dedicou-se a aprender, mesmo sozinho, produções cinematográficas.


Neste meio tempo, trabalhou ainda como frentista, eletricista e operador de câmeras em eventos, aniversários, casamentos e batizados.


A variedade e capacidade de adaptação trouxeram a Vras77 a criatividade necessária para tornar-se uma referência na produção de videoclipes no Brasil.




Vras77 durante a gravação de um dos primeiros videoclipes, o Mister M, com grupo Inquérito


Hoje, assina como diretor seis clipes que estão na programação da MTV, além de já ter sido colaborador do programa A LIGA e também do portal RAP NACIONAL


Em 2010, descobriu-se produtor de videoclipes e encontrou no hip-hop um nicho de mercado ainda pouco explorado. A partir do clipe Mister M, do grupo Inquérito, passou a ser procurado por grupos e a trabalhar como diretor dos materiais audiovisuais, sendo que no último ano gravou mais de 20 trabalhos em vários Estados brasileiros.



Vras77, na sua laje no Jd Elisa Maria: improvisação, criatividade e bons trabalhos






Neste ano, já gravou cerca de 30 videoclipes, sendo que o destaque vai para o Norte Nordeste Me Veste, do músico nordestino RAPadura. O material é parte do documentário Cada Canto um Rap, Cada Rap um Canto, que está sendo gravado em diferentes regiões do país, em parceria com o rapper Renan Inquérito e a jornalista Jéssica Balbino. Neste ano, Vras77 e se prepara também para, no próximo mês, colocar nas ruas o videoclipe Poucas Palavras, do grupo Inquérito, que homenageia a literatura marginal e a comunicação no hip-hop. Neste mês, Vras grava ainda videoclipes do grupo Floripa MC´s, no sul do país.


Conheça os principais trabalhos de Vras77 neste vídeo








Clipe Mister M é usado em oficina para moradores do Capão






por Jéssica Balbino






Filmado nas ruas de São Paulo por Vras77, o clipe do grupo Inquérito é referência em oficina do projeto Viração


Casas mal acabadas, ruas sem asfalto e o povo sem assistência. Onde o Estado não chega, o cenário se torna um convite à criminalidade, mas são ações como a que acontece hoje no projeto Viração, com uma oficina sobre videoclipe, que trata da temática social que mudam futuros a partir do presente.


Por conta disso, o clipe da música Mister M do grupo Inquérito, gravado pelo cinegrafista conhecido como Vras77 foi escolhido por Guilherme Bryan, o jornalista que conduz a oficina.


A história do cinegrafista, que após filmar este clipe mudou a maneira de registrar o rap no Brasil, funde-se com a dos estudantes que recebem as orientações.


Para Bryan, ele aparece como um dos melhores exemplos de produções caseiras na geração da internet e por isso o clipe gravado no centro velho de São Paulo foi escolhido para ser exibido durante a aula. “Ele trabalha com artistas da periferia e fabrica os próprios equipamentos que utiliza”, considera o jornalista, que avalia a iniciativa como uma grande oportunidade de mostrar aos moradores da periferia de São Paulo como o videoclipe pode promover mudanças. “O videoclipe pode ser uma ferramenta interessante para intervenção social e para o registro do que estas pessoas vivem no dia-a-dia e de grandes fatos históricos, muitas vezes antecipando os outros formatos audiovisuais, caso do cinema”, acrescenta o instrutor, que desenvolve uma pesquisa de doutorado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) sobre a história do videoclipe no país.





Na parte prática, a oficina conta com exemplos através da exibição de um documentário, seguida por ilustrações no Brasil e nos Estados Unidos, de videoclipes que retratam a realidade social e acontecimentos históricos marcantes, como a chacina do Carandiru e de Vigário Geral. “Também tratarei da relação entre videoclipe e cinema, mostrando, por exemplo, como A minha Alma doRappa, foi importante para a realização posterior de Cidade de Deus”, revela Bryan.


A oficina conta ainda com outros videoclipes ligados ao rap brasileiro, como também o Diário de um Detento, do grupo Racionais MCs.


Além desta oficina, o projeto Viração também atua com debates de conceitos ligados ao direito à comunicação, ética e diversidade por meio de jornais, murais e blogs, permitindo que os jovens tenham a oportunidade de exercer a cidadania e divulgar as próprias ações.


Mais um ponto em comum com Vras77, que constroi equipamentos de valores muito altos com poucos recursos e define “a necessidade faz o ‘corre’ para dar qualidade nas produções”.


Para conhecer os trabalhos de Vras77, clique aqui!






Bocada - Forte ::: Reportagem
Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop é lançada em Franco da Rocha (SP)

Data: 28/06/2011




























Mulheres de diversas partes do país participam de mais um lançamento oficial da Frente e reforçam a importância da participação feminina no hip-hop

Franco da Rocha, São Paulo - O espaço é simples: sofás contrastam com bancos improvisados, plantas pelas paredes e artesanatos expostos. No canto, uma estante e o saber da cultura negra, da capoeira e do hip-hop. Do outro lado, os berimbaus, o balcão e o aconchego da periferia. Essa é a Associação Cultural do Véio, no bairro Bela Vista, na cidade de Franco da Rocha – SP. Foi lá que aconteceu, no domingo (26), o lançamento da Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop (FNMH²), que, devagar, vem ocupando espaços em todo país, com a militância feminina.




O início do evento foi marcado por um almoço comunitário entre os participantes do encontro, que embora seja feito por mulheres, recebeu vários homens. Num clima comunicativo, o evento teve início com a apresentação do espetáculo “Dança com P”, com Vanessa Soares, que intercalou o espetáculo com a declamação de poesias de Fela Kuti e Akins Kintê. Na sequencia, clipes de mulheres como MC Gra, Nathy MC, Flora Matos e Camila CDD foram exibidos, mostrando o ingresso das mulheres no audiovisual.




A presidente da FNMH², Lunna, comemora o resultado e anuncia novos trabalhos. “Além dos lançamentos que temos feito, vamos, em breve, lançar um DVD com as imagens dos encontros e depoimentos das guerreiras que ajudam a disseminar nossa cultura por todo país e até mesmo para outros lugares do país”, dispara. A vice-presidente, Malu Viana, também pontua a participação no evento e o crescimento da Frente. “Somos a primeira organização da América Latina a trazer discussão de gênero através do hip-hop,. Usando isso, conseguimos chegar a vários espaços que nos é de direito e que antes não eram ocupados”.




A primeira roda de discussão reuniu uma representante de cada elemento da cultura. Para representar o conhecimento, Jéssica Balbino, jornalista e escritora de Poços de Caldas. Para representar a discotecagem, DJ Miriah. No graffiti, Riska falou sobre seu trabalho, além de deixar sua marca num graffiti da Associação. Como MC, quem falou foi Sharylaine Sil, que também coordenou a mesa, que teve também a presença da B.Girl Nehsa. O questionamento da plateia acalorou o debate sobre a essência dentro da cultura hip-hop, seguido por diversas colocações do público e das participantes que compuseram a mesa. Para completar, as MCs Lívia Cruz e DeDeusexibiram os clipes "Vem Pra Perto de Mim" e "Destino", respectivamente, além de falarem um pouco sobre as produções, os investimentos e de como é, na atualidade, gravar e distribuir o rap por meio de clipes.




A segunda mesa do evento foi composta por Malu Viana, Jô Maloupas, Vanice e Vanessa Soares, que falaram sobre a violência contra mulheres e deram seus depoimentos. Para encerrar, Sharylaine Sil, Odisseia das Flores, Zoraide, Andreil´s B.Girls Crew, Lívia Cruz e DeDeus MC fizeram shows, levando toda plateia ao ritmo do rap feminino.








Batalha de Rimas revela talentos em Poços de Caldas









Organizada pelo Coletivo Hip-Hop Uai, a primeira batalha de rimas na cidade traz conhecimento e interatividade






por Jéssica Balbino






Poços de Caldas, MG – Um de frente para o outro, dois jovens se enfrentam e tentam provar qual é o melhor. A cena acima poderia se encaixar em mais uma das milhares de estatísticas sobre a violência, tão comuns e frequentes no dias atuais, entretanto, esta é uma das alternativas que criam oportunidades e promovem cidadania.


Por meio do hip-hop, a 1ª Batalha de Rimas de Poços de Caldas, promovida pelo Coletivo Hip-Hop Uai (União dos Ativistas do Interior) no domingo (12) conseguiu reunir mais de 100 pessoas na pista de skate da cidade e preencher as horas do domingo com muito pensamento ágil, som de qualidade e rap sul-mineiro.


A proposta trouxe resultado, o que é confirmado pela declaração do vencedor da batalha, Michel, conhecido como Dimenor. “O hip-hop é um movimento que me tirou da merda, porque eu não fazia nada, sabe? Eu me arrisco no graffiti, faço rap, um pouco de break, enfim, é uma terapia para mim, porque estou aqui e não mexendo com outras porcarias”, dispara, ao ser questionado sobre o papel que a cultura de rua exerce em sua vida.


Aos 19 anos, ele se dedica aos estudos e às rimas em batalhas improvisadas num dos pontos turísticos da cidade. Sobre o evento, o primeiro da cidade organizado com o propósito de uma rinha entre MCs, o jovem afirma que mesmo tendo competido entre amigos, ele tomou cautela com as ofensas e elogia o evento. “Isso é muito bom, a batalha estimula o raciocínio rápido, faz ter gosto pela leitura, que é o que eu tenho feito muito, para ampliar o vocabulário e não falar bobagem”, destaca, lembrando que a vitória alcançada na disputa, com muitas rimas criativas, é dedicada à mãe. “Ela sempre me deseja boa sorte”, diz.













Professor x aluno


Esta foi a cena da final da Batalha, protagonizada por Dimenor e Dudu Nights, que na verdade, é o cara que inspirou o vencedor do campeonato a começar a rimar. Juntos, eles integram o grupo Sagáticos, em Poços de Caldas, e se enfrentaram numa final acirrada, decidida pelos aplausos do público, ou seja, de forma diferente de como foi conduzida, com avaliação de quatro jurados com longa bagagem no rap e experiência em rimas.


Para Dudu, a organização da batalha foi o que valorizou o evento. “O hip-hop é uma cultura que serve como diversão e para tirar as pessoas de coisas ruins, porque a cabeça aqui é usada para coisas do bem. Muita gente tem preconceito, mas a mensagem verdadeira do rap que praticamos aqui é algo que serve para utilizar a cabeça, ou seja, coisa de gente inteligente”, coloca o rapper que se utiliza de Racionais MCs e Raul Seixas como inspiração para as rinhas e também para o rap feito pelo grupo.






Conhecimento


Para estimular ainda mais o conhecimento, o Coletivo Hip-Hop Uai efetuou ainda a distribuição de exemplares do Jornal Enraizados.


Vindos do Rio de Janeiro, enviados por Dudu de Morro Agudo e Refém, os jornais fazem parte de mais um projeto do movimento carioca e ganhou as ruas de Poços de Caldas a partir do evento, onde vários participantes ganharam um exemplar, fizeram a leitura, e conforme orientados, passaram adiante.













Participação feminina






Com muitas mulheres na plateia, somente uma se arriscou na rima. Talita, também conhecida como Laddies, mesmo após ter sido a única, entre três amigas, que continuou cantando foi a representante feminina do hip-hop durante a Batalha.


Inscrita e mesmo com certo receio, ela assumiu o microfone e duelou contra o primo, China_Trindad.


Tímida, ela teve medo de ofender, mas, fez as mulheres presentes na pista de skate vibrarem com a iniciativa.


“Foi interessante participar. Eu fiquei com vergonha, mas depois gostei de rimar e me empolguei. Nas próximas estarei lá, com certeza”, diz.


Para China_Trindad, que a enfrentou na Batalha, apesar da atitude respeitosa que Talita teve, houve um certo desconforto. “Ela é mulher, fica complicado de duelar, porque não é qualquer coisa que se pode dizer a uma garota”, afirma.






Com certificado de aprovação, pelo público


As declarações do campeão da Batalha se casam com a proposta do coletivo, que objetiva resgatar as origens da cultura hip-hop por meio das festas nas ruas, com a participação popular e interação de todos os presentes.


Ao comando do MC Leopac, o campeonato de rimas aconteceu ao som das pick-ups de DJ Mancha e contagiou o público, como é o caso do b.boy Ricardo Saraiva, que foi no evento apenas para prestigiar, uma vez que não se arrisca no freestyle.


“O resultado foi muito legal, compareceram bastante gente, o pessoal do skate também ficou e foi um movimento muito legal. Vou estar sempre presente nas próximas, porque ajuda a cultura hip-hop crescer na cidade e incentiva as pessoas. Abre portas”, fala.


Por curtição e também compromisso profissional e social, o vereador Tiago Cavelagna apoiou o evento e esteve presente na festa. Junto aos participantes, ele aplaudiu, incentivou e se divertiu durante toda tarde de domingo. Para ele, o apoio para o evento aconteceu de forma natural, uma vez que ele é próximo de culturais que envolve a juventude. “É sempre importante estamos juntos com as pessoas que representamos. O projeto é maravilhoso e tem um potencial de crescimento enorme. É a maneira mais rápida de inserir bons conceitos e valores no meio dessa juventude que há muito tempo se sente marginalizada”, considera.


Cavelagna pontua ainda que a 1ª Batalha de Rimas proporcionou ainda o uso adequado do espaço público. “Com eventos desse tipo, o tráfico, que infelizmente tenta tomar conta é excluído e devolve para o cidadão de bem o que foi construído por ele”, acredita.


Entre os apoiadores está também Tiago Batista Fernandes, conhecido como Tiagão Tatoo. Enquanto público, ele aproveitou para praticar o skate boarding na pista da cidade e curtir as rimas improvisadas dos MCs que assumiram o duelo. Questionado sobre o apoio oferecido, em forma de brindes e parceria, para o evento, ele afirma que está envolvido com hip-hop porque gosta bastante. “Muita gente aqui está envolvido e sabe o que dizer e outros que querem apoiar e somam. É algo que está no começo e vai longe”, dispara.


O vencedor levou uma tatuagem do Tiagão Tatoo, uma camiseta da Interiô Street Wear, marca que veste o Coletivo Hip-Hop Uai, completamente criada e desenvolvida em Poços e um CD do grupo Uclanos.


O vice-campeão levou dois piercings do Crazy Body Piercing e uma camiseta da Interiô Street Wear.


Os participantes que se arriscaram no freestyle temático e também em rinhas além da Batalha levaram também outros oito pierciengs.













Avaliação do Júri






Os jurados que avaliaram o desempenho dos MCs em critérios como criatividade, interatividade e raciocínio até o duelo da semi-final da Batalha também comentam o evento, como é o a caso de Flávio Alves, conhecido como Suburbano. Envolvido com o rap desde 1993, ele foi um dos pioneiros na cidade a se envolver com a cultura hip-hop e hoje é MC de um dos grupos mais considerados no sul do Estado, o Uclanos.


“Por ter sido a primeira batalha, foi bem interessante, a interatividade do público foi muita boa, assim como a qualidade dos rappers. Acho muito importante que aconteçam outras edições”, diz.


Assim como ele, Bebeto, conhecido como Mb2 é também membro do grupo Uclanos e foi um dos jurados, avalia o encontro como algo bastante válido. “Parabéns ao coletivo Hip-Hop Uai, que conseguiu reunir a galera e os grupos, que puderam interagir mais com o lance do freestyle”, comenta.


Já o rapper J.Dois, integrante do grupo MAFIA (Manos na Área Fazendo a Igualdade Acontecer) considera a Batalha como algo que vai ao encontro, justamente, da igualdade que ele busca. Com um CD novo “Do dia pra noite”, ele elogia o campeonato. “As rimas apresentadas foram muito boas e estou feliz com a oportunidade de ter feito parte disso, de ter sido jurado”.


Já o rapper Alemão, que lança no próximo ano o CD “Ultrapassando Fronteiras”, que está sendo gravado nos estúdios Rima Cruz, em Votuporanga, onde grupos como Inquérito e Shekinah Rap também gravam, pensa que o evento foi bastante surpreendente pela qualidade. “Foram rimas muito boas apresentadas pelo público, pessoas bastante inteligentes e queremos mais eventos grandes, fazendo a coisa acontecer no interior de Minas Gerais”, finaliza.














Negligência leva Dina Di a morte






Rainha do rap morre após infecção hospitalar adquirida no parto ; esta é a terceira morte causada pela Master Clin que se tem notícia






por Jéssica Balbino*


“Eu quero ver meu filho crescer, ai você que só que me fazer o mal vou dizer que não há alem de Deus o que me faça parar,não há derrota que derrote alguém que nasceu pra vencer !”, sempre disse Dina Di numa das músicas mais marcantes dos quase 20 anos no rap.

Entretanto, por conta da imprudência da clínica Master Clin – Maternidade e Cirurgia Plástica, ela contraiu uma infecção hospitalar no último dia 2, na ocasião do parto da segunda filha, Alinne.

Num clínica particular, a rainha do rap, que sempre enfrentou maus bocados pela vida, foi contaminada pela negligência humana, que a impediram de continuar vendo o filho crescer e não permitiu que ela sequer cuidasse da pequena Alinne.

Viviane Lopes Matias, como diz no RG que ela perdeu por tantas vezes, faleceu no último dia 19 às 23h30, quando foi internada num hospital na capital paulista.

O que mais indigna e se faz inconcebível é como uma mulher morre, em pleno século XXI, de infecção do parto?! Qual a falha humana que permite que uma mãe fique doente e não possa criar e cuidar do filho?

Ainda na mesma música citada no início do texto, a rimadora diz “se eu fui mulher para parir eu sou muito mais para criar” e claro que sim, se a incompetência dos capitalistas do nosso mundo permitissem um tratamento adequado a alguém que vai a um hospital para ter um bebê, dar a luz, conceber mais uma vida e dizer ao mundo que ainda há uma esperança.

O questionamento é: a clínica tomou conhecimento do falecimento dela? Faz algo pela família? Cuidou do bebê recém nascido numa de suas salas de última geração? Vai ajudar a criar o filho mais velho que ela tem? Mandou alguma nota de pêsames ao universo do hip hop e aos apreciadores de rap de todo o Brasil?

A Alinne perdeu a mãe pouco depois de conhecê-la, a família perdeu um ente querido, os amigos perderam uma pessoa encantadora e maravilhosa, os fãs perderam uma rimadora única e fantástica, o rap nacional perdeu muito do brilho e da voz feminina na cena, o hip hop perdeu a atitude e a postura de Dina Di e o Brasil perdeu mais uma guerreira para este sistema porco e desumano, para as falhas na saúde.

Contudo, ela não foi a única a morrer por infecção contraída na clínica. Em fevereiro de 2009 a estudante Regiane Aparecida Bauer Lopes, 27 anos também faleceu após um procedimento de lipoaspiração no local.

A clínica, localizada no Jardim Santa Adélia, na zona leste de São Paulo confirma a morte da jovem e informa ainda, segundo a reportagem da Agência Estado na ocasião, que há cerca de sete anos, uma outra mulher também faleceu vítima de infecção contraída no local.

De acordo com a clínica, são realizadas cerca de 30 cirurgias de lipoaspiração por mês na clínica, ou seja, uma por dia, e ela é especializada no serviço há 10 anos.

Porém, neste tempo, só que temos notícias, três famílias já perderam suas mulheres por conta da negligência.

O caso da morte da estudante Regiane foi registrado no 69º Distrito Policial, conforme informou a Secretaria de Segurança Pública na época.

Quando a morte da Dina Di, creio que nada foi registrado ou apurado ainda. A família está inconsolável, obviamente. Os amigos (aqueles que sempre foram e não apenas os que apareceram após a sua morte apenas para aparecer no cenário) lamentam e procuram uma forma de entender e punir os irresponsáveis que deixaram com que ela adquirisse uma infecção.

Desta maneira, fica aqui o manifesto contra os responsáveis pela morte da rainha do rap, da mulher, da mãe, da rimadora, da amiga, da pessoa, do ser humano que foi a Viviane Lopes Matias (Dina Di).